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Cálculo I

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5.2 Propriedades de integração

Na Seção 5.1, vimos que a integral definida de uma dada função f em um intervalo [a,b] está associada à área (líquida) entre seu gráfico e as retas y=0, x=a e x=b. Consultemos a Figura 5.2.

Com base nesta noção geométrica, podemos inferir as seguintes propriedades de integração para funções integráveis f e g:

  1. a)

    Integral degenerada

    ∫aaf⁢(x)⁢𝑑x=0 (5.26)
  2. b)

    Multiplicação por escalar

    ∫abk⋅f⁢(x)⁢𝑑x=k⋅∫abf⁢(x)⁢𝑑x (5.27)
  3. c)

    Soma/subtração

    ∫ab[f⁢(x)±g⁢(x)]⁢𝑑x=∫abf⁢(x)⁢𝑑x±∫abg⁢(x)⁢𝑑x (5.28)
  4. d)

    Sobreposição/concatenação de intervalos

    ∫abf⁢(x)⁢𝑑x=∫acf⁢(x)⁢𝑑x+∫cbf⁢(x)⁢𝑑x (5.29)
  5. e)

    Cotas inferior e superior

    minx∈[a,b]⁡{f⁢(x)}⋅(b−a)≤∫abf⁢(x)⁢𝑑x≤maxx∈[a,b]⁡{f⁢(x)}⋅(b−a) (5.30)
Exemplo 5.2.1.

Sejam f e g funções integráveis tais que

∫−14f⁢(x)⁢𝑑x=2, (5.31)
∫45f⁢(x)⁢𝑑x=3, (5.32)
∫−14g⁢(x)⁢𝑑x=−1. (5.33)

Então, vejamos os seguintes casos:

  1. a)

    ∫4−1g⁢(x)⁢𝑑x=−∫−14g⁢(x)⁢𝑑x (5.34)
    =−(−1)=1. (5.35)
  2. b)

    ∫−1−14⁢f⁢(x)⁢𝑑x=0. (5.36)
  3. c)

    ∫−14−2⁢g⁢(x)⁢d⁢x=−2⁢∫−14g⁢(x)⁢𝑑x (5.37)
    =2. (5.38)
  4. d)

    ∫−14[f⁢(x)−2⁢g⁢(x)]⁢𝑑x=∫−14f⁢(x)⁢𝑑x−∫−142⁢g⁢(x)⁢𝑑x (5.39)
    =2−2∫−14g(x)dx (5.40)
    =2+2=4. (5.41)
  5. e)

    ∫−15f⁢(x)⁢𝑑x=∫−14f⁢(x)⁢𝑑x+∫45f⁢(x)⁢𝑑x (5.42)
    =2+3=5. (5.43)
Exemplo 5.2.2.

Lembrando que −1≤sen⁡x≤1, temos da propriedade e) acima que

2⁢π⁢minx∈[−π,π]⁡{sen⁡(x)}≤∫−ππsen⁡(x)⁢𝑑x≤2⁢π⁢maxx∈[−π,π]⁡{sen⁡(x)} (5.44)
−2⁢π≤∫−ππsen⁡(x)⁢𝑑x≤2⁢π. (5.45)

5.2.1 Teorema do valor médio

Com base na noção de integral, define-se a média de uma função f no intervalo [a,b] por

1b−a⁢∫abf⁢(x)⁢𝑑x, (5.46)

no caso de f ser integrável neste intervalo.

Teorema 5.2.1.(Teorema do valor médio para integrais)

Se f for contínua em [a,b], então existe c∈[a,b] tal que

f⁢(c)=1b−a⁢∫abf⁢(x)⁢𝑑x. (5.47)
Demonstração.

Vejamos uma ideia da demonstração. Da propriedade de integração e) acima, temos

minx∈[a,b]⁡{f⁢(x)}≤1b−a⁢∫abf⁢(x)⁢𝑑x≤maxx∈[a,b]⁡{f⁢(x)}. (5.48)

Agora, pelo teorema do valor intermediário (Teorema 2.6.1), temos f assume todos os valores entre seus valores mínimo e máximo. Logo, existe c∈[a,b] tal que

f⁢(c)=1b−a⁢∫abf⁢(x)⁢𝑑x. (5.49)

∎

Exemplo 5.2.3.

Seja f uma função contínua em [a,b], a≠b, e

∫abf⁢(x)⁢𝑑x=0, (5.50)

então f possui pelo menos um zero neste intervalo. De fato, do teorema do valor médio para integrais, temos que existe c∈[a,b] tal que

f⁢(c)=1b−a⁢∫abf⁢(x)⁢𝑑x (5.51)
=1b−a⋅0=0. (5.52)

5.2.2 Teorema fundamental do cálculo, parte I

Seja f uma função integrável e F a função definida por

F⁢(x)=∫axf⁢(t)⁢𝑑t, (5.53)

para algum número real a dado.

Teorema 5.2.2.(Teorema fundamental do cálculo, parte I)

Se f é contínua em [a,b], então é contínua em [a,b] e diferenciável em (a,b) a função

F⁢(x)=∫axf⁢(t)⁢𝑑t (5.54)

sendo

F′⁢(x)=dd⁢x⁢∫axf⁢(t)⁢𝑑t=f⁢(x). (5.55)
Demonstração.

Vejamos a ideia da demonstração. Da definição de derivada, temos

F′⁢(x)=limh→0F⁢(x+h)−F⁢(x)h (5.56)
=limh→01h[∫ax+hf(x)dx−∫axf(x)dx] (5.57)
=limh→01h∫xx+hf(x)dx. (5.58)

Agora, do teorema do valor médio para integrais (Teorema 5.2.1), temos que existe ch∈[x,x+h] tal que

f⁢(ch)=1x+h−x⁢∫xx+hf⁢(x)⁢𝑑x (5.59)
=1h∫xx+hf(x)dx. (5.60)

Notemos que ch→x quando h→0 e, portanto, temos

F′⁢(x)=limh→01h⁢∫xx+hf⁢(x)⁢𝑑x (5.61)
=limh→0f(ch) (5.62)
=f(x). (5.63)

∎

Exemplo 5.2.4.

Vejamos os seguintes casos:

  1. a)

    dd⁢x⁢∫1xt2⁢𝑑t=x2. (5.64)
    Código 82: Python
    1import sympy as sym
    2from sympy.abc import x,t
    3sym.diff(sym.integrate(t**2, (t, 1, x)))
    x**2
  2. b)

    dd⁢x⁢∫0xsen⁡(t)⁢𝑑t=sen⁡(x) (5.65)

5.2.3 Integral indefinida

A parte I do teorema fundamental do cálculo (Teorema 5.2.2), mostra que a integral de uma função f (contínua) é uma função F tal que

F′⁢(x)=f⁢(x). (5.66)

Dizemos que F é uma primitiva da função f.

Observamos que se F é uma primitiva de f, então

G⁢(x)=F⁢(x)+C (5.67)

também é primitiva de f para qualquer constante C, i.e.

G′⁢(x)=(F⁢(x)+C)′ (5.68)
=F′(x)+(C)′ (5.69)
=f(x)+0 (5.70)
=f(x). (5.71)

Mais ainda, do Corolário 4.3.2 do teorema do valor médio para derivadas, temos que quaisquer duas primitivas de uma mesma função diferem-se apenas uma constante.

Com isso, definimos a integral indefinida de f em relação a x por

∫f⁢(x)⁢𝑑x=F⁢(x)+C, (5.72)

onde F é qualquer primitiva de f e C uma constante indeterminada.

Exemplo 5.2.5.

Vejamos os seguintes casos:

  1. a)

    ∫𝑑x=x+C

    Código 83: Python
    1from sympy import Symbol, integrate
    2x = Symbol('x')
    3integrate(1, x)
    x
  2. b)

    ∫2⁢x⁢𝑑x=x2+C

  3. c)

    ∫cos⁡(x)⁢𝑑x=sen⁡(x)+C

  4. d)

    ∫ex⁢𝑑x=ex+C

5.2.4 Teorema fundamental do cálculo, parte II

Teorema 5.2.3.(Teorema fundamental do cálculo, parte II)

Se f é contínua em [a,b] e F é qualquer primitiva de f, então

∫abf⁢(x)⁢𝑑x=F⁢(b)−F⁢(a). (5.73)
Demonstração.

Vejamos a ideia da demonstração. A parte I do teorema fundamental do cálculo (Teorema 5.2.2), nos garante a existência de

G⁢(x)=∫axf⁢(t)⁢𝑑t. (5.74)

Seja, então, F uma primitiva qualquer de f. Logo,

F⁢(b)−F⁢(a)=[G⁢(b)+C]−[G⁢(a)+C] (5.75)
=G(b)−G(a) (5.76)
=∫abf(t)dx−∫aaf(t)dt (5.77)
=∫abf(t)dx. (5.78)

∎

Exemplo 5.2.6.

Vejamos os seguintes casos:

  1. a)

    ∫01𝑑x=x|01 (5.79)
    =1−0=1 (5.80)
    Código 84: Python
    1from sympy import Symbol, integrate
    2x = Symbol('x')
    3integrate(1, (x, 0, 1))
    1
  2. b)

    ∫01x⁢𝑑x=x22|01 (5.81)
    =122−022=12 (5.82)
  3. c)

    ∫−π2π2cos⁡(x)⁢𝑑x=sen⁡(x)|−π2π2 (5.83)
    =sen(π2)−sen(−π2) (5.84)
    =2 (5.85)
Observação 5.2.1.(Permutação dos limites de integração)

Do teorema fundamental do cálculo, parte II, temos

∫abf⁢(x)⁢𝑑x=−∫baf⁢(x)⁢𝑑x. (5.86)

Ou seja, o valor da integral definida muda de sinal ao permutarmos seus limites de integração. De fato, se F é uma primitiva de f, então

∫abf⁢(x)⁢𝑑x=F⁢(b)−F⁢(a) (5.87)
=−[F(a)−F(b)] (5.88)
=−∫baf(x)dx. (5.89)
Exemplo 5.2.7.

Temos que

∫01𝑑x=x|01=1−0=1. (5.90)

Agora,

∫10𝑑x=x|10=0−1=−1. (5.91)

Conforme esperado, temos

∫01𝑑x=−∫10𝑑x. (5.92)

5.2.5 Exercícios resolvidos

ER 5.2.1.

Calcule

∫1ex−1x⁢d⁢x. (5.93)
Resolução.

Primeiramente, notemos que

∫x⁢𝑑x=x22+C, (5.94)
∫1x⁢𝑑x=ln⁡x+C. (5.95)

Então, usando as propriedades de integração, temos

∫1ex−1x⁢d⁢x=∫1ex⁢𝑑x−∫1e1x⁢𝑑x (5.96)
=[x22]1e−[lnx]1e (5.97)
=[(e)22−12]−[lne−ln1] (5.98)
=e2−12−12ln(e)−0 (5.99)
=e2−1. (5.100)
Código 85: Python
1from sympy import Symbol, integrate, E, sqrt
2x = Symbol('x')
3integrate((x - 1/x), (x,1,sqrt(E)))
-e/2 + 1
ER 5.2.2.(Aplicação: cálculo de área)

Calcule a área entre o gráfico de f⁢(x)=sen⁡(x) e as retas y=0, x=−π/2 e x=π/2.

Resolução.

Lembrando que a integral definida está associada à área sob o gráfico do integrando, temos que a área desejada pode ser calculada por

A=−∫−π20sen⁡(x)⁢𝑑x+∫0π2sen⁡(x)⁢𝑑x, (5.101)

pois sen⁡(x)<0 para x∈(−π/2,0) e sen⁡(x)>0 para x∈(0,π/2). Também, observamos que

∫sen⁡(x)⁢𝑑x=−cos⁡(x)+C. (5.102)

Logo, do teorema fundamental do cálculo segue que

A=−∫−π20sen⁡(x)⁢𝑑x+∫0π2sen⁡(x)⁢𝑑x (5.103)
=−[−cos(x)]−π20+[−cos(x)]0π2 (5.104)
=−[−1−0]+[−0−(−1)]=2. (5.105)
Código 86: Python
1from sympy import Symbol, integrate, sin, pi
2x = Symbol('x')
3A = -integrate(sin(x), (x,-pi/2,0))
4A += integrate(sin(x), (x,0,pi/2))
5A
2
ER 5.2.3.(Aplicação: problema de valor inicial)

Encontre a função y=y⁢(x) tal que

d⁢yd⁢x=x, (5.106)

e y⁢(0)=1.

Resolução.

Integrando ambos os lados da equação diferencial em relação a x, temos

∫d⁢yd⁢x⁢𝑑x=∫x⁢𝑑x (5.107)
y=x22+C (5.108)

Agora, da condição y⁢(0)=1, segue

y⁢(0)=1 (5.110)
022+C=1 (5.111)
C=1. (5.112)

Concluímos que y=x2/2+1. Verifique!

5.2.6 Exercícios

E. 5.2.1.

Sejam f e g tais que

∫−20f⁢(x)⁢𝑑x=−2, (5.113)
∫−10f⁢(x)⁢𝑑x=12, (5.114)
∫−20g⁢(x)⁢𝑑x=1. (5.115)

Calcule

  1. a)

    ∫−1−1f⁢(x)−51⋅g⁢(x)⁢d⁢x

  2. b)

    ∫−202⁢g⁢(x)−12⁢f⁢(x)⁢d⁢x

  3. c)

    ∫−2−1f⁢(x)⁢𝑑x


a) 0; b) 3; c) −5/2

E. 5.2.2.

Calcule

  1. a)

    ∫−122⁢𝑑x

  2. b)

    ∫−3−11−x⁢d⁢x

  3. c)

    ∫1e2x⁢𝑑x


a) 6; b) 6; c) 2

E. 5.2.3.

Calcule a área entre o gráfico de f⁢(x)=x2−1 e as retas y=0, x=0 e x=2.


2

E. 5.2.4.

Calcule as seguintes integrais:

  1. a)

    ∫cos⁡(x)⁢𝑑x

  2. b)

    ∫0π2cos⁡(x)⁢𝑑x


a) sen⁡(x)+C; b) 1

E. 5.2.5.

Encontre a função y=y⁢(x) tal que

d⁢yd⁢x=cos⁡(x), (5.116)

e y⁢(π)=1.


y=sen⁡(x)+1


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Pedro H A Konzen
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