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Cálculo I

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4.3 Teorema do valor médio

O teorema do valor médio é uma aplicação do teorema de Rolle.

4.3.1 Teorema de Rolle

O Teorema de Rolle fornece uma condição suficiente para que uma dada função diferenciável tenha derivada nula em pelo menos um ponto.

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Figura 4.8: Teorema de Rolle.
Teorema 4.3.1.(Teorema de Rolle)

Seja f uma função contínua no intervalo fechado [a,b] e diferenciável no intervalo aberto (a,b). Se

f⁢(a)=f⁢(b), (4.81)

então existe pelo menos um ponto crítico c∈(a,b) tal que

f′⁢(c)=0. (4.82)
Demonstração.

A ideia da demonstração é uma consequência dos Teorema 4.2.1 e Teorema 4.2.2. O primeiro, que existem pontos de mínimo e máximos globais m,M∈[a,b], i.e.

f⁢(m)≤f⁢(x)≤f⁢(M). (4.83)

Se m=M, então f é uma função contínua, donde segue que f′⁢(x)=0 para todo x∈(a,b). Agora, se m≠M, então m ou M é um extremo local. Sem perda de generalidade, supomos que c=m seja o mínimo local. Neste caso, o Teorema 4.2.2 nos garante que f′⁢(c)=0. ∎

Exemplo 4.3.1.

O polinômio p⁢(x)=x3−4⁢x2+3⁢x+1 tem pelo menos um ponto crítico no intervalo (0,1) e no intervalo (1,3). De fato,temos p⁢(0)=p⁢(1)=1 e, pelo teorema de Rolle, segue que existe pelo menos um ponto c∈(0,1) tal que f′⁢(c)=0. Analogamente, como também p⁢(1)=p⁢(3)=1, segue do teorema que existe pelo menos um ponto crítico no intervalo (1,3). Na Figura 4.9 temos o gráfico de p.

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Figura 4.9: Gráfico de p⁢(x)=x3−4⁢x2+3⁢x+1.

De fato, como todo polinômio é derivável em toda parte, podemos calcular os pontos críticos como segue.

p′⁢(x)=0 (4.84)
3⁢x2−8⁢x+3=0 (4.85)
x=8±64−362⁢76 (4.86)
x1=4−73≈0.45, (4.87)
x2=4+73≈2.22. (4.88)
Exemplo 4.3.2.

Vejamos os seguintes casos em que o Teorema de Rolle não se aplica:

  1. a)

    A função

    f⁢(x)={x,0≤x<1,0,x=1. (4.89)

    é tal que f⁢(0)=f⁢(1)=0, entretanto sua derivada f′⁢(x)=1 no intervalo (0,1). Ou seja, a condição da f ser contínua no intervalo fechado associado é necessária no teorema de Rolle. Veja a Figura 4.10 para o esboço do gráfico desta função.

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    Figura 4.10: Gráfico da função Exemplo 4.3.2 a).
  2. b)

    Não existe ponto tal que a derivada da g⁢(x)=−|x−1|+1 seja nula. Entretanto, notemos que g⁢(0)=g⁢(2)=0 e g contínua no intervalo fechado [0,2]. O teorema de Rolle não se aplica neste caso, pois g não é derivável no intervalo (0,2), mais especificamente, no ponto x=1. Veja a Figura 4.11.

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    Figura 4.11: Gráfico da função referente ao Exemplo 4.3.2 b).

4.3.2 Teorema do valor médio

O teorema do valor médio444O teorema do valor médio também é conhecido como teorema de Lagrange é uma generalização do teorema de Rolle.

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Figura 4.12: Teorema do valor médio.
Teorema 4.3.2.(Teorema do valor médio)

Seja f uma função contínua no intervalo fechado [a,b] e diferenciável no intervalo aberto (a,b). Então, existe pelo menos um ponto c∈(a,b) tal que

f⁢(b)−f⁢(a)b−a=f′⁢(c). (4.90)
Demonstração.

O resultado segue da aplicação do teorema de Rolle (Teorema 4.3.1) a seguinte função

F⁢(x)=f⁢(x)−f⁢(a)−f⁢(b)−f⁢(a)b−a⁢(x−a) (4.91)

De fato, F é contínua em [a,b], diferenciável em (a,b) e F⁢(a)=F⁢(b). Logo, existe c∈(a,b) tal que

F′⁢(c)=0 (4.92)
f′⁢(c)+f⁢(b)−f⁢(a)b−a=0 (4.93)
f⁢(b)−f⁢(a)b−a=f′⁢(c) (4.94)

∎

Observação 4.3.1.

Em um contexto de aplicação, o Teorema do valor médio relaciona a taxa de variação média da função em um intervalo [a,b] com a taxa de variação instantânea da função em um ponto interior deste intervalo.

Exemplo 4.3.3.

A função f⁢(x)=x2 é contínua no intervalo [0,2] e diferenciável no intervalo (0,2). Logo, segue do teorema do valor médio que existe pelo menos um ponto c∈(0,2) tal que

f′⁢(c)=f⁢(2)−f⁢(0)2−0=2. (4.95)

De fato, f′⁢(x)=2⁢x e, portanto, tomando c=1, temos f′⁢(c)=2.

Corolário 4.3.1.(Funções com derivadas nulas são constantes)

Se f′⁢(x)=0 para todos os pontos em um intervalo (a,b), então f é constante neste intervalo.

Demonstração.

De fato, sejam x1,x2∈(a,b) e, sem perda de generalidade, x1<x2. Então, temos f é contínua no intervalo [x1,x2] e diferenciável em (x1,x2). Segue do teorema do valor médio que existe c∈(x1,x2) tal que

f⁢(x2)−f⁢(x1)x2−x1=f′⁢(c). (4.96)

Como f′⁢(c)=0, temos f⁢(x2)=f⁢(x1). Ou seja, a função vale sempre o mesmo valor para quaisquer dois pontos no intervalo (a,b), logo é constante neste intervalo. ∎

Corolário 4.3.2.(Função com a mesma derivada diferem por uma constante)

Se f′⁢(x)=g′⁢(x) para todos os pontos em um intervalo aberto (a,b), então f⁢(x)=g⁢(x)+C, C constante, para todo x∈(a,b).

Demonstração.

Segue, imediatamente, da aplicação do corolário anterior à função h⁢(x)=f⁢(x)−g⁢(x). ∎

Corolário 4.3.3.(Monotonicidade e o sinal da derivada)

Suponha que f seja contínua em [a,b] e derivável em (a,b).

  1. a)

    Se f′⁢(x)>0 para todo x∈(a,b), então f é crescente555f é função crescente em um intervalo I, quando x1>x2 em I implica f⁢(x1)>f⁢(x2). em [a,b].

  2. b)

    Se f′⁢(x)<0 para todo x∈(a,b), então f é decrescente666f é função decrescente em um intervalo I, quando x1>x2 em I implica f⁢(x1)<f⁢(x2). em [a,b].

Demonstração.

Vamos demonstrar o item a), i.e. se f′⁢(x)>0 para todo x∈(a,b), então f é crescente em [a,b]. Sejam x1<x2 com x1,x2∈[a,b]. Observamos que f é contínua em [x1,x2] e diferenciável em (x1,x2). Logo, pelo Teorema do valor médio (Teorema 4.3.2), temos que existe c∈(x1,x2) tal que

f⁢(x2)−f⁢(x1)x2−x1=f′⁢(c) (4.97)

ou, equivalentemente,

f⁢(x2)−f⁢(x1)=f′⁢(c)⋅(x2−x1). (4.98)

Como f′⁢(x)>0 para todo x∈(a,b) e x2−x1>0, concluímos que f⁢(x2)−f⁢(x1)>0, i.e.

f⁢(x1)<f⁢(x2). (4.99)

Com isso, mostramos que se x1<x2 com x1,x2∈[a,b], então f⁢(x1)<f⁢(x2), i.e. f é crescente em [a,b].

A demonstração do item b) é análoga, consulte o E.4.3.6. ∎

Exemplo 4.3.4.

Vamos estudar a monotonicidade da função polinomial f⁢(x)=x3−4⁢x2+3⁢x+1. Na Figura 4.13, temos o esboço de seu gráfico.

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Figura 4.13: Gráfico de f⁢(x)=x3−4⁢x2+3⁢x+1.

Podemos usar o Corolário 4.3.3 para estudarmos a monotonicidade (i.e. intervalos de crescimento ou decrescimento). Isto é, fazemos o estudo de sinal da derivada de f. Calculamos

f′⁢(x)=3⁢x2−8⁢x+3. (4.100)

Logo, temos

[Uncaptioned image]

Ou seja, f′⁢(x)<0 no conjunto (−∞,4−73)∪(4+73,∞) e f′⁢(x)<0 no conjunto (4−73,4+73). Concluímos que f é crescente nos intervalos (−∞,4−73] e [4+73,∞), enquanto que f é decrescente no intervalo [4−73,4+73].

Exemplo 4.3.5.

A função exponencial f⁢(x)=ex é crescente em toda parte. De fato, temos

f′⁢(x)=ex>0, (4.101)

para todo x∈ℝ.

4.3.3 Exercícios resolvidos

ER 4.3.1.

Um carro percorreu 150 km em 1h30min. Mostre que em algum momento o carro estava a uma velocidade maior que 80 km/h.

Resolução.

Seja s=s⁢(t) a função distância percorrida pelo carro e t o tempo, em horas, contado do início do percurso. Do teorema do valor médio, exite tempo t1∈(0, 1,5) tal que

f′⁢(t1)=s⁢(1,5)−s⁢(0)1,5−0=1501,5=100⁢km/h. (4.102)

Ou seja, em algum momento o carro atingiu a velocidade de 100 km/h.

ER 4.3.2.

Estude a monotonicidade da função gaussiana f⁢(x)=e−x2.

Resolução.

Para estudarmos a monotonicidade de uma função, podemos fazer o estudo de sinal de sua derivada. Neste caso, temos

f′⁢(x)=−2⁢x⁢e−x2. (4.103)

Assim, vemos que

[Uncaptioned image]

Concluímos que f é crescente no intervalo (−∞⁢,0) e decrescente no intervalo (0,∞).

4.3.4 Exercícios

E. 4.3.1.

Estude a monotonicidade de f⁢(x)=x2−2⁢x.


Decrescente: (−∞⁢,1]; Crescente: [1,∞)

E. 4.3.2.

Estude a monotonicidade de f⁢(x)=x33−x.


Decrescente: [−1,1]; Crescente: (−∞,−1]; [1,∞)

E. 4.3.3.

Estude a monotonicidade de f⁢(x)=ln⁡x.


Crescente: (0,∞)

E. 4.3.4.

Estude a monotonicidade de f⁢(x)=x⁢e−x.


Crescente: (−∞⁢,1); Decrescente de (1,∞)

E. 4.3.5.

Demonstre que um polinômio cúbico pode ter no máximo 3 raízes reais.


Dica: use o teorema de Rolle.

E. 4.3.6.

Seja f contínua em [a,b] e derivável em (a,b). Mostre que se f′⁢(x)<0 para todo x∈(a,b), então f é decrescente em [a,b].


Dica: consulte a demonstração do item a) do Corolário 4.3.3.


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Pedro H A Konzen
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