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Cálculo I

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2.6 Continuidade

2.6.1 Definição de função contínua

Dizemos que uma função f é contínua em um ponto x0, quando f⁢(x0) está definida, existe o limite

limx→x0f⁢(x) (2.300)

e

limx→x0f⁢(x)=f⁢(x0). (2.301)

Usando de limites laterais, definimos os conceitos de função contínua à esquerda ou à direta. Quando a função f não é contínua em um dado ponto x0, dizemos que f é descontínua neste ponto.

Exemplo 2.6.1.

Consideremos a seguinte função

f⁢(x)={x−2(x+1)⁢(x−2),x≠2,−4,x=2. (2.302)

Na Figura 2.27, temos um esboço do gráfico de f.

Refer to caption
Figura 2.27: Gráfico da função f definida no Exemplo 2.6.1.

Estudemos a continuidade desta função nos seguintes pontos:

  1. a)

    x=−2. Neste ponto, temos f⁢(−2)=−1 e

    limx→−2x−2(x+1)⁢(x−2) (2.303)
    =−4−1⋅(−4)=−1=f(−2). (2.304)

    Com isso, concluímos que f é contínua no ponto x=−2.

  2. b)

    x=−1. Neste ponto,

    f⁢(−1)=(x−2)(x+1)⁢(x−2) (2.305)
    =1x−1=10 (2.306)

    logo, f(-1) não está definido e, portanto, f é descontínua neste ponto. Observemos que f tem uma assíntota vertical em x=−1, verifique!

  3. c)

    x=2. Neste ponto, temos f⁢(2)=−4 e

    limx→2x−2(x+1)⁢(x−2) (2.307)
    =limx→21x+1=13≠f(2). (2.308)

    Portanto, concluímos que f é descontínua em x=2.

Uma função f é dita ser contínua em um intervalo (a,b), quando f é contínua em todos os pontos x0∈(a,b). Para intervalos, [a,b), (a,b] ou [a,b], empregamos a noção de continuidade lateral nos pontos de extremos fechados dos intervalos. Quando uma função é contínua em (−∞,∞), dizemos que ela é contínua em toda parte.

Exemplo 2.6.2.(Continuidade da função valor absoluto)

A função valor absoluto é contínua em toda parte. De fato, ela é definida por

|x|={x,x≥0,−x,x<0. (2.309)

Consultemos o esboço do gráfico desta função na Figura 2.28.

Refer to caption
Figura 2.28: Gráfico de f⁢(x)=|x|.

Observamos que para x∈(−∞⁢,0) temos |x|=x que é contínua para todos estes valores de x. Também, para x∈(0,∞) temos |x|=−x que é contínua para todos estes valores de x. Agora, em x=0, temos |0|=0 e

limx→0+|x|=limx→0+x=0, (2.310)
limx→0−|x|=limx→0−−x=0. (2.311)

Logo,

limx→0|x|=0=|0|. (2.312)

Com tudo isso, concluímos que a função valor absoluto é contínua em toda parte.

2.6.2 Propriedades de funções contínuas

Se f e g são funções contínuas em x=c0 e k um número real, então também são contínuas em x=x0 as funções:

  1. a)

    k⋅f

  2. b)

    f±g

  3. c)

    f⋅g

  4. d)

    f/g, se g⁢(x0)≠0

  5. e)

    fk, se existe fk⁢(x0).

Exemplo 2.6.3.

Temos que f⁢(x)=x e g⁢(x)=|x| são exemplos de funções contínuas em toda parte. Segue das propriedades acima que:

  1. a)

    fa⁢(x)=2⁢x é contínua em toda parte.

  2. b)

    fb⁢(x)=x+|x| é contínua em toda parte.

  3. c)

    fc⁢(x)=2⁢x⁢|x| é contínua em toda parte.

  4. d)

    fd⁢(x)=|x|x é contínua para todo x∈ℝ∖{0}.

  5. e)

    fe⁢(x)=x2 é contínua em toda parte.

Exemplo 2.6.4.

Polinômios são contínuos em toda parte. Isto é, se

p⁢(x)=an⁢xn+an−1⁢xn−1+⋯+a1⁢x+a0, (2.313)

an≠0, então

limx→x0p⁢(x)=p⁢(x0), (2.314)

para qualquer x0∈ℝ. Por exemplo,

limx→−12−x2+x5=2−(−1)2+(−1)5=0. (2.315)
Exemplo 2.6.5.

Funções racionais r⁢(x)=p⁢(x)/q⁢(x) são contínuas em todos os pontos de seus domínios. Por exemplo, a função racional

f⁢(x)=x−1x2−1, (2.316)

é descontínua nos pontos

x2−1=0⇒x=±1, (2.317)

pois f não está definida nestes pontos. Agora, para x0≠1 e x0≠−1, temos

limx→x0f⁢(x) (2.318)
=limx→x0x−1x2−1 (2.319)
=x0−1x02−1=f(x0). (2.320)

Por exemplo,

limx→0f⁢(x)=0−102−1=1=f⁢(0). (2.321)

Ou seja, f é contínua nos intervalos (−∞,−1)∪(−1,1)∪(1,∞), que coincide com seu domínio.

Observação 2.6.1.(Continuidade de funções elementares)

São contínuas em todo seu domínio as funções potência, polinomiais, racionais, trigonométricas, exponenciais e logarítmicas.

Se f é contínua no ponto x0 e g é contínua no ponto f⁢(x0), então a função composta f∘g é contínua no ponto x0.

Exemplo 2.6.6.

Estudemos os seguintes casos:

  1. a)

    y=x2−1 é descontínua nos pontos x tais que

    x2−1<0⇒−1<x<1. (2.322)

    Isto é, esta função é contínua em (−∞,−1]∪[1,∞).

  2. b)

    y=|x−1x2−1| é descontínua nos pontos x tais que

    x2−1=0⇒x=±1. (2.323)
Exemplo 2.6.7.

Podemos explorar a continuidade para calcularmos limites. Por exemplo,

limx→0x+4⋅esen⁡x=limx→0(x+4)⋅esen⁡(limx→0x) (2.324)
=4⋅e0=2. (2.325)

Teorema do valor intermediário

O teorema do valor intermediário estabelece que qualquer função f contínua dada em um intervalo [a,b], assume todos os valores entre f⁢(a) e f⁢(b). Consultemos a Figura 2.29.

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Figura 2.29: Teorema do valor intermediário.
Teorema 2.6.1.(Teorema do valor intermediário)

Seja f função contínua em um intervalo fechado [a,b]. Se d é um número entre f⁢(a) e f⁢(b), então existe c∈[a,b] tal que f⁢(c)=d.

Exemplo 2.6.8.

Podemos afirmar que f⁢(x)=x3−x−1 tem (pelo menos) um zero no intervalo (0,2). De fato, f é contínua no intervalo [0,2] e, pelo teorema do valor intermediário, assume todos os valores entre f⁢(0)=−1<0 e f⁢(2)=5>0. Observemos que y=0 está entre f⁢(0) e f⁢(2). Consultemos a Figura 2.30.

Refer to caption
Figura 2.30: Gráfico da função f⁢(x)=x3−x−1.

2.6.3 Exercícios resolvidos

ER 2.6.1.

Encontre os pontos de continuidade da função

f⁢(x)=|x|x. (2.326)
Resolução.

Observamos que a função é descontínua em x=0, pois não está definida neste ponto. Agora, para x<0, temos

f⁢(x)=|x|x=−xx=−1. (2.327)

Ou seja, para x<0 a função é constante igual a −1 e, portanto, contínua.

Para x>0, temos

f⁢(x)=|x|x=xx=1. (2.328)

I.e., para x>0 a função é constante igual a 1 e, portanto, contínua.

Concluímos que f⁢(x) é contínua em ℝ∖{0}. Faça o esboço do gráfico desta função!

ER 2.6.2.

Encontre os pontos de continuidade da função

f⁢(x)=ln⁡(x+1x−1). (2.329)
Resolução.

A função f pode ser vista como a composição da função logaritmo natural g⁢(x)=ln⁡x com a função racional h⁢(x)=x+1x−1. Observamos que:

  1. a)

    a função logaritmo natural é contínua em todo o seu domínio, i.e. g é contínua para todo x>0;

  2. b)

    a função racional h⁢(x)=x+1x−1 é contínua para todo x≠1.

Lembrando que a composição de funções contínuas é contínua, temos que a função f⁢(x)=g⁢(h⁢(x)) é contínua nos pontos de continuidade da função h tais que h⁢(x)>0, i.e. para x≠1 e

x+1x−1>0. (2.330)

Fazendo o estudo de sinal

[Uncaptioned image]

vemos que h⁢(x)>0 em (−∞,−1)∪(1,∞).

Em resumo, h é contínua em (0,∞) e g é contínua e positiva em (−∞,−1)∪(1,∞). A função f=(h∘g) é contínua na interseção destes conjuntos, i.e. f é contínua em (1,∞).

2.6.4 Exercícios

E. 2.6.1.

Encontre os pontos de continuidade da função

f⁢(x)=x3−27x2−3⁢x+2. (2.331)

ℝ∖{1,2}.

E. 2.6.2.

Encontre os pontos de continuidade da função

f⁢(x)=x3−27x2−3⁢x+2. (2.332)

(1,2)∪(3,∞).

E. 2.6.3.

Calcule

  1. a)

    limx→−1ex2−1

  2. b)

    limx→2ln⁡|x2−1|


a) 1; b) 0

E. 2.6.4.

Calcule

limx→πln⁡(sen⁡x2−cos⁡x2). (2.333)

0

E. 2.6.5.

Calcule o valor de c de forma que a seguinte função seja contínua em x=1.

f⁢(x)={x−1x2−1,x≠1c,x=1 (2.334)

c=12

E. 2.6.6.

Use o teorema do valor intermediário para mostrar que f⁢(x)=cos⁡(x)−x tem (pelo menos) um zero no intervalo (0,1).


f é contínua em [0,1], f⁢(0)=1>0 e f⁢(1)=cos⁡(1)−1<0. Pelo teorema do valor intermediário, existe c∈[0,1] tal que f⁢(c)=0.

E. 2.6.7.

O Teorema 2.6.1 (teorema do valor intermediário) tem como hipótese a continuidade da função f no intervalo [a,b]. O que pode acontecer se f não for contínua neste intervalo? Dê um exemplo.


Se f não for contínua em [a,b], então f pode não assumir todos os valores entre f⁢(a) e f⁢(b). Por exemplo, a função f⁢(x)=|x|/x definida no intervalo [−1,1] é descontínua em x=0 e não assume o valor 0 que está entre f⁢(−1)=−1 e f⁢(1)=1.

E. 2.6.8.

No E.2.5.12, consideramos a equação da lei básica da radioatividade

N=N0⁢e−λ⁢t (2.335)

onde, N=N⁢(t) é o número de átomos no tempo t, N0≥0 é o número de átomos presentes no tempo inicial t=0 e λ>0 é a constante de decaimento. Qual a tendência de N=N⁢(t) quando a taxa de decaimento λ→0+. E, qual a relação do resultado com o conceito de continuidade?


N⁢(t)→N0 quando λ→0+. Para λ=0, temos que N⁢(t)≡N0, i.e. N é contínua à direta em λ=0.


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Pedro H A Konzen
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