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Cálculo II

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4.5 Campos conservativos

Na Subseção 4.3.2 definimos que um campo vetorial 𝑭 é conservativo se for o campo gradiente de uma função real ϕ, i.e. se existir uma função ϕ tal que

𝑭=∇ϕ (4.141)

Se 𝑭⁢(x,y)=f1⁢(x,y)⁢𝒊+f2⁢(x,y)⁢𝒋, então

𝑭=∂ϕ∂x⁢𝒊+∂ϕ∂y⁢𝒋, (4.142)

Seja, agora, C uma curva lisa parametrizada555C deve estar totalmente contida no domínio do campo conservativo. por

𝒓⁢(t)=x⁢(t)⁢𝒊+y⁢(t)⁢𝒋,a≤t≤b, (4.143)

de 𝒓⁢(a)=(x⁢(a),y⁢(a))=(xa,ya) a 𝒓⁢(b)=(x⁢(b),y⁢(b))=(xb,yb). A integral de linha de 𝑭 ao longo de C é

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=∫ab𝑭⁢(𝒓⁢(t))⋅𝒓′⁢(t)⁢𝑑t (4.144)
=∫ab[∂ϕ∂x(x(t),y(t))x′(t)+∂ϕ∂y(x(t),y(t))y′(t)]dt (4.145)
=∫abdd⁢tϕ(x(t),y(t))dt=ϕ(x(b),y(b))−ϕ(x(a),y(a)). (4.146)

Portanto, a integral de linha de um campo conservativo 𝑭=∇ϕ ao longo de uma curva C depende apenas dos pontos inicial (xa,ya) e final (xb,yb) da curva C e não do caminho percorrido, sendo que

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=ϕ⁢(xb,yb)−ϕ⁢(xa,ya) (4.147)

ou, equivalentemente,

∫C∇ϕ⋅d⁢𝒓=ϕ⁢(xb,yb)−ϕ⁢(xa,ya). (4.148)
Exemplo 4.5.1.

Seja 𝑭⁢(x,y)=2⁢x⁢y⁢𝒊+x2⁢𝒋. Primeiramente, vamos verificar se 𝑭 é conservativo. Buscamos uma função ϕ⁢(x,y) tal que

∂ϕ∂x=2⁢x⁢y, (4.149)
∂ϕ∂y=x2. (4.150)

Integrando a primeira equação em relação a x, obtemos

ϕ⁢(x,y)=x2⁢y+g⁢(y), (4.151)

onde g⁢(y) é uma função de y apenas. Derivando em relação a y, temos

∂ϕ∂y=x2+g′⁢(y)=x2. (4.152)

Portanto, g′⁢(y)=0, o que implica que g⁢(y) é uma constante. Assim, podemos escolher g⁢(y)=0 e temos que

ϕ⁢(x,y)=x2⁢y. (4.153)

Vamos agora calcular a integral de linha de 𝑭 ao longo de curvas diferentes que partem de (0,0) e chegam em (1,1).

  1. a)

    C1: o segmento de reta que parte de (0,0) e chega em (1,1).

    A curva C1 pode ser parametrizada por

    𝒓⁢(t)=t⁢𝒊+t⁢𝒋,0≤t≤1. (4.154)

    Assim, a integral de linha é

    ∫C1𝑭⋅𝑑𝒓=∫01𝑭⁢(t,t)⋅𝒓′⁢(t)⁢𝑑t (4.155)
    =∫01[(2t2)𝒊+(t2)𝒋]⋅(𝒊+𝒋)dt (4.156)
    =∫01(2t2+t2)dt=∫013t2dt=1. (4.157)
  2. b)

    C2: o segmento de reta que parte de (0,0) e chega em (1,0) e depois o segmento de reta que parte de (1,0) e chega em (1,1).

    A curva C2 pode ser particionada em duas sub-curvas C1′ e C2′, onde C1′ é o segmento de reta que parte de (0,0) e chega em (1,0) e C2′ é o segmento de reta que parte de (1,0) e chega em (1,1). Assim, temos que

    ∫C2𝑭⋅𝑑𝒓=∫C1′𝑭⋅𝑑𝒓+∫C2′𝑭⋅𝑑𝒓. (4.158)

    A curva C1′ pode ser parametrizada por

    𝒓1′⁢(t)=t⁢𝒊,0≤t≤1. (4.159)

    Assim, a integral de linha ao longo de C1′ é

    ∫C1′𝑭⋅𝑑𝒓=∫01[(2⁢t⁢(0))⁢𝒊+(t2)⁢𝒋]⋅𝒊⁢𝑑t=∫010⁢𝑑t=0. (4.160)

    A curva C2′ pode ser parametrizada por

    𝒓2′⁢(t)=𝒊+t⁢𝒋,0≤t≤1. (4.161)

    Assim, a integral de linha ao longo de C2′ é

    ∫C2′𝑭⋅𝑑𝒓=∫01[(2⁢(1)⁢(t))⁢𝒊+(12)⁢𝒋]⋅𝒋⁢𝑑t (4.162)
    =∫011dt=1. (4.163)

    Portanto, temos que

    ∫C2𝑭⋅𝑑𝒓=0+1=1. (4.164)

Os resultados obtidos para as integrais de linha ao longo das curvas C1 e C2 são iguais, o que era esperado, pois 𝑭 é conservativo. De (4.147), temos que

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=ϕ⁢(1,1)−ϕ⁢(0,0)=1−0=1. (4.165)

para qualquer curva lisa C que parta de (0,0) e chegue em (1,1).

Acima, mostramos que, se 𝑭 é conservativo, então a integral de linha de 𝑭 ao longo de uma curva C depende apenas dos pontos inicial e final da curva. A recíproca também é verdadeira: se a integral de linha de 𝑭 ao longo de qualquer curva C depende apenas dos pontos inicial e final da curva, então 𝑭 é conservativo. De fato, fixemos um ponto (xa,ya) e definimos a função ϕ⁢(x,y) como

ϕ⁢(x,y)=∫C𝑭⋅𝑑𝒓, (4.166)

onde C é qualquer curva lisa que parta de (xa,ya) e chegue em (x,y), sempre com C no domínio de 𝑭. A função ϕ é bem definida, pois a integral de linha depende apenas dos pontos inicial e final da curva. Agora, esta integral de linha também é igual a

ϕ⁢(x,y)=∫C1𝑭⋅𝑑𝒓+∫C2𝑭⋅𝑑𝒓, (4.167)

em que C1 é uma curva t⁢𝒊+ya⁢𝒋, xa≤t≤x, e C2 é uma curva x⁢𝒊+t⁢𝒋, ya≤t≤y. Assim, temos que

∂ϕ∂x=∂∂x⁢∫C𝑭⋅𝑑𝒓 (4.168)
=∂∂x∫C1𝑭⋅d𝒓 (4.169)
=∂∂x∫xaxf1(t,ya)dt=f1(x,ya). (4.170)

Como ya é um ponto arbitrário, temos que

∂ϕ∂x=f1⁢(x,y). (4.171)

De forma, análoga, temos que

∂ϕ∂y=f2⁢(x,y). (4.172)

Portanto, 𝑭=∇ϕ, o que mostra que 𝑭 é conservativo.

Outro resultado importante é que, se 𝑭 é conservativo, então a integral de linha de 𝑭 ao longo de qualquer curva fechada C é nula. De fato, seja C uma curva fechada parametrizada por

𝒓⁢(t)=x⁢(t)⁢𝒊+y⁢(t)⁢𝒋,a≤t≤b, (4.173)

com 𝒓⁢(a)=𝒓⁢(b). Assim, temos que

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=ϕ⁢(x⁢(b),y⁢(b))−ϕ⁢(x⁢(a),y⁢(a))=0. (4.174)
Exemplo 4.5.2.

A integral de linha do campo vetorial 𝑭⁢(x,y)=2⁢x⁢y⁢𝒊+x2⁢𝒋 ao longo da circunferência C do círculo x2+y2=1 é nula, pois 𝑭 é conservativo. De fato, a curva C pode ser parametrizada por

𝒓⁢(t)=cos⁡(t)⁢𝒊+sen⁡(t)⁢𝒋,0≤t≤2⁢π. (4.175)

Assim, a integral de linha é

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=∫02⁢π𝑭⁢(cos⁡(t),sen⁡(t))⋅𝒓′⁢(t)⁢𝑑t (4.176)
=∫02⁢π[(2cos(t)sen(t))𝒊+(cos2(t))𝒋]⋅(−sen(t)𝒊+cos(t)𝒋)dt (4.177)
=∫02⁢π(−2cos(t)sen2(t)+cos3(t))dt (4.178)
=∫02⁢πcos(t)(cos2(t)−2sen2(t))dt (4.179)
=∫02⁢πcos(t)(3cos2(t)−2)dt=0. (4.180)

Em resumo, temos que são equivalentes as seguintes afirmações:

  1. a)

    𝑭 é conservativo.

  2. b)

    A integral de linha de 𝑭 ao longo de qualquer curva C depende apenas dos pontos inicial e final da curva.

  3. c)

    A integral de linha de 𝑭 ao longo de qualquer curva fechada C é nula.

4.5.1 Teste de campo conservativo

Seja um campo vetorial 𝑭⁢(x,y)=f1⁢(x,y)⁢𝒊+f2⁢(x,y)⁢𝒋 definido em um domínio aberto D simplesmente conexo666De forma coloquial, uma região é dita ser simplesmente conexa quando é conexa e não contém buracos.. Assumimos, ainda, que f1 e f2 têm derivadas parciais contínuas em D. Então, 𝑭 é conservativo se, e somente se,

∂f1∂y=∂f2∂x (4.181)

para todo (x,y)∈D. De fato, a implicação é direta. Se 𝑭 é conservativo, então 𝑭=∇ϕ para alguma função ϕ. Assim, temos que

∂f1∂y=∂2ϕ∂y⁢∂x=∂2ϕ∂x⁢∂y=∂f2∂x. (4.182)

A recíproca também é verdadeira, mas a demonstração foge aos objetivos aqui.

Exemplo 4.5.3.

Vamos verificar se o campo vetorial 𝑭⁢(x,y)=2⁢x⁢y⁢𝒊+x2⁢𝒋 é conservativo. Temos que

∂f1∂y=∂∂y⁢(2⁢x⁢y)=2⁢x, (4.183)
∂f2∂x=∂∂x⁢(x2)=2⁢x. (4.184)

Portanto, ∂f1∂y=∂f2∂x, o que mostra que 𝑭 é conservativo.

4.5.2 Campos vetoriais no espaço

Os resultados apresentados acima podem ser estendidos para campos vetoriais no espaço. Seja um campo vetorial

𝑭⁢(x,y,z)=f1⁢(x,y,z)⁢𝒊+f2⁢(x,y,z)⁢𝒋+f3⁢(x,y,z)⁢𝒌 (4.185)

conservativo com 𝑭=∇ϕ. Então, temos que

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=ϕ⁢(xb,yb,zb)−ϕ⁢(xa,ya,za), (4.186)

onde C é uma curva lisa qualquer que parte de (xa,ya,za) e chega em (xb,yb,zb).

Também, assumindo as suavidades necessárias, temos que 𝑭 é conservativo se, e somente se,

∂f1∂y=∂f2∂x, (4.187)
∂f1∂z=∂f3∂x, (4.188)
∂f2∂z=∂f3∂y (4.189)

ou, equivalentemente, quando o rotacional de 𝑭 é nulo, i.e.

∇×𝑭=𝟎. (4.190)
Exemplo 4.5.4.

O campo vetorial 𝑭=y⁢z⁢𝒊+x⁢z⁢𝒋+x⁢y⁢𝒌 é conservativo. De fato, temos que

∇×𝑭=[𝒊𝒋𝒌∂∂x∂∂y∂∂zf1f2f3] (4.191)
=[𝒊𝒋𝒌∂∂x∂∂y∂∂zy⁢zx⁢zx⁢y] (4.192)
=0. (4.193)

A função potencial ϕ, 𝑭=∇ϕ, pode ser obtida integrando f1 em relação a x, o que nos dá

ϕ⁢(x,y,z)=x⁢y⁢z+g⁢(y,z), (4.194)

onde g⁢(y,z) é uma função de y e z. Derivando em relação a y, temos

∂ϕ∂y=x⁢z+∂g∂y=x⁢z, (4.195)

o que implica que ∂g∂y=0, ou seja, g⁢(y,z) é uma função de z apenas. Derivando em relação a z, temos

∂ϕ∂z=x⁢y+∂g∂z=x⁢y, (4.196)

o que implica que ∂g∂z=0, ou seja, g⁢(z) é uma constante. Assim, podemos escolher g⁢(z)=0 e temos que

ϕ⁢(x,y,z)=x⁢y⁢z. (4.197)

Com isso, podemos calcular a integral de linha de 𝑭 ao longo de qualquer curva C que parta de um ponto (xa,ya,za) e chegue em um ponto (xb,yb,zb) como

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=ϕ⁢(xb,yb,zb)−ϕ⁢(xa,ya,za)=xb⁢yb⁢zb−xa⁢ya⁢za. (4.198)

Por exemplo, se C é a curva que parte de (1,1,1) e chega em (2,2,2), então

∫C𝑭⋅𝑑𝒓=ϕ⁢(2,2,2)−ϕ⁢(1,1,1)=8−1=7. (4.199)

Verifique!

4.5.3 Exercícios

E. 4.5.1.

Determine uma função potencial ϕ para o campo vetorial

𝑭⁢(x,y)=(3⁢x2+2⁢y)⁢𝒊+(2⁢x+4⁢y)⁢𝒋. (4.200)

ϕ⁢(x,y)=x3+2⁢x⁢y+2⁢y2

E. 4.5.2.

Considere os campos vetoriais

a)⁢𝑭⁢(x,y)=(2⁢x+y)⁢𝒊+(x+2⁢y)⁢𝒋, (4.201)
b)⁢𝑮⁢(x,y)=y⁢𝒊+2⁢x⁢𝒋. (4.202)

Determine qual deles é conservativo. Para o campo conservativo, determine uma função potencial.


a) conservativo, ϕ⁢(x,y)=x2+x⁢y+y2; b) não é conservativo.

E. 4.5.3.

Seja 𝑭⁢(x,y)=(2⁢x⁢y+cos⁡x)⁢𝒊+(x2+2⁢y)⁢𝒋. Calcule ∫C𝑭⋅𝑑𝒓 para qualquer curva lisa C que parte de (0,1) e chega a (π2⁢,2).


∫(0,1)(π2⁢,2)𝑭⋅𝑑𝒓=π22+4

E. 4.5.4.

Considere o campo vetorial 𝑭⁢(x,y)=−y⁢𝒊+x⁢𝒋 e a circunferência unitária C, percorrida no sentido anti-horário. Calcule ∫C𝑭⋅𝑑𝒓 e conclua se 𝑭 é conservativo.


∫C𝑭⋅𝑑𝒓=2⁢π, 𝑭 não é conservativo.

E. 4.5.5.

Verifique se o campo vetorial

𝑭⁢(x,y,z)=(2⁢x⁢z+y)⁢𝒊+(x+2⁢y)⁢𝒋+(x2+3⁢z2)⁢𝒌 (4.203)

é conservativo. Em caso afirmativo, determine uma função potencial e calcule a integral de linha ao longo de qualquer curva lisa que parte de (0,0,0) e chega a (1,2,1).


Conservativo, com função potencial ϕ⁢(x,y,z)=x2⁢z+x⁢y+y2+z3. ∫(0,0,0)(1,2,1)𝑭⋅𝑑𝒓=8.


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Pedro H A Konzen
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