| | | |

Equações diferenciais ordinárias

Ajude a manter o site livre, gratuito e sem propagandas. Colabore!

3.2 EDO de ordem 2: raízes complexas ou repetidas

Na Seção 3.1 introduzimos as propriedades fundamentais de EDOs lineares de segunda ordem com coeficientes constantes. Em particular, tratamos o caso em que a equação característica tem raízes reais distintas. Nesta seção, estudamos os casos em que a equação característica tem raízes complexas ou raízes duplas.

3.2.1 Raízes complexas

Consideramos

a⁢y′′+b⁢y′+c⁢y=0, (3.70)

cuja equação característica

a⁢r2+b⁢r+c=0 (3.71)

tem raízes complexas

r1=λ+i⁢μ,r2=λ−i⁢μ. (3.72)

As soluções particulares associadas são

y1⁢(t)=er1⁢t=e(λ+i⁢μ)⁢t (3.73)
y2⁢(t)=er2⁢t=e(λ−i⁢μ)⁢t. (3.74)

Da fórmula de Euler333Leonhard Paul Euler, 1707-1783, matemático e físico suíço. Fonte: Wikipédia: Leonhard Euler., temos

ea+b⁢i=ea⁢eb⁢i (3.75)
=ea(cosb+isenb). (3.76)

Ou seja, as soluções particulares podem ser reescritas da forma444Lembremos que seno é uma função ímpar, i.e. sen⁡(−x)=−sen⁡(x).

y1⁢(t)=eλ⁢t⁢[cos⁡(μ⁢t)+i⁢sen⁡(μ⁢t)], (3.77)
y2⁢(t)=eλ⁢t⁢[cos⁡(μ⁢t)−i⁢sen⁡(μ⁢t)] (3.78)

Agora, se denotarmos

u⁢(t)=eλ⁢t⁢cos⁡(μ⁢t)ev⁢(t)=eλ⁢t⁢sen⁡(μ⁢t), (3.79)

temos

y1⁢(t)=u⁢(t)+i⁢v⁢(t),y2⁢(t)=u⁢(t)−i⁢v⁢(t). (3.80)

Para concentrar a escrita, vamos denotar

y⁢(t)=u⁢(t)±i⁢v⁢(t). (3.81)

Substituindo y=y⁢(t) na EDO, obtemos

0=a⁢y′′+b⁢y′+c⁢y (3.82)
=a(u′′±iv′′)
+b⁢(u′±i⁢v′)
+c(u+±iv) (3.83)
=(au′′+bu′+cu)±i(av′′+bv′+cv). (3.84)

Ou seja,

a⁢u′′+b⁢u′+c⁢u=0 (3.85)
a⁢v′′+b⁢v′+c⁢v=0. (3.86)

Desta forma, concluímos que u⁢(t)=eλ⁢t⁢cos⁡(μ⁢t) e v⁢(t)=eλ⁢t⁢sen⁡(μ⁢t) são soluções particulares da EDO (3.70). Ainda mais, pode-se mostrar que o wronskiano W⁢(u,v;t)≠0, i.e. u e v formam um conjunto fundamental de soluções. Do que vimos na Seção 3.1, concluímos que

y⁢(t)=eλ⁢t⁢[c1⁢cos⁡(μ⁢t)+c2⁢sen⁡(μ⁢t)] (3.87)

é solução geral de (3.70).

Exemplo 3.2.1.

Vamos resolver

y′′+2⁢y′+5⁢y=0. (3.88)

Começamos identificando a equação característica associada

r2+2⁢r+5=0. (3.89)

Suas raízes são

r=−2±4−4⋅1⋅52 (3.90)
=−1±2i. (3.91)

Logo, a solução geral é

y⁢(t)=e−t⁢[c1⁢cos⁡(2⁢t)+c2⁢sen⁡(2⁢t)]. (3.92)

Modelagem: sistema massa-mola não amortecido

Consideremos um sistema massa-mola não amortecido e sem ação de força externa. Denotamos por m>0 a massa, k>0 a constante da mola. Desta forma, a lei de Newton do movimento nos fornece o seguinte modelo matemático

m⁢s′′⁢(t)=−k⁢s⁢(t), (3.93)

onde s=s⁢(t) é a posição da massa (s=0 é a posição de repouso, s>0 a mola está esticada e s<0 a mola está contraída). Ou seja, trata-se de uma EDO de segunda ordem homogênea e com coeficientes constantes.

Supondo que, no tempo inicial t=0, a massa está na posição inicial s0 e velocidade v0, temos que a situação física é modelada pelo seguinte PVI

s′′+km⁢s=0,t>0, (3.94)
s⁢(0)=s0,s′⁢(0)=v0. (3.95)

Como k/m>0, temos que a equação característica associada têm raízes imaginárias

r=±km⁢i. (3.96)

Logo, a solução geral é

s⁢(t)=c1⁢cos⁡(km⁢t)+c2⁢sen⁡(km⁢t). (3.97)

Agora, aplicando as condições iniciais, obtemos

s⁢(t)=s0⁢cos⁡(km⁢t)+v0⁢mk⁢sen⁡(km⁢t). (3.98)

3.2.2 Raízes repetidas

Seja a equação

a⁢y′′+b⁢y′+c⁢y=0, (3.99)

cuja equação característica

a⁢r2+b⁢r+c=0 (3.100)

tem raiz dupla555b2−4⁢a⁢c=0

r=−b2⁢a. (3.101)

Neste caso, podemos verificar que

y1⁢(t)=e−b2⁢a⁢t (3.102)

é solução particular de (3.99).

Vamos usar o método de redução de ordem para encontrar uma segunda solução particular y2=y2⁢(t) de (3.99), lembrando que o wronskiano W⁢(y1,y2;t) deve ser não nulo. O método consiste em buscar por uma solução da forma

y2⁢(t)=u⁢(t)⁢y1⁢(t) (3.103)
=u(t)e−b2⁢a⁢t. (3.104)

Substituindo y2 na EDO (3.99), obtemos

0=a⁢y2′′+b⁢y2′+c⁢y2 (3.105)
=a(u′′y1+2u′y1′+uy1′′)
+b⁢(u′⁢y1+u⁢y1′)+c⁢u⁢y1 (3.106)
=au′′y1+(2ay1′+by1)u′
+(a⁢y1′′+b⁢y1′+c⁢y1)⁢u (3.107)
=au′′y1+(−2⁢a⁢b2⁢ae−b2⁢a+be−b2⁢a)u′ (3.108)
=au′′y1. (3.109)

Segue que

u′′=0 (3.110)
u′=c1 (3.111)
u=c1+c2⁢t. (3.112)

Podemos escolher c1 e c2 arbitrariamente, desde que o wronskiano

W⁢(y1,y2;t)≠0. (3.113)

A escolha mais simples é c1=0 e c2=1, donde segue que

y2⁢(t)=t⁢e−b2⁢a⁢t. (3.114)

Concluímos que a solução geral de (3.99) é

y⁢(t)=(c1+c2⁢t)⁢e−b2⁢a⁢t. (3.115)
Exemplo 3.2.2.

Vamos resolver

y′′−2⁢y′+y=0. (3.116)

Da equação característica

r2−2⁢r+1=0 (3.117)

obtemos a raiz dupla

r=1. (3.118)

Logo, a solução geral da EDO é

y⁢(t)=(c1+c2⁢t)⁢et. (3.119)

3.2.3 Exercícios resolvidos

ER 3.2.1.

Resolva

y′′−4⁢y′+5⁢y=0, (3.120)
y⁢(0)=2,y′⁢(0)=0. (3.121)
Resolução.

Resolvendo a equação característica

r2−4⁢r+5=0, (3.122)

obtemos as raízes

r=4±16−4⋅1⋅52 (3.123)
=2±i. (3.124)

Logo, a solução geral é

y⁢(t)=e2⁢t⁢[c1⁢cos⁡(t)+c2⁢sen⁡(t)]. (3.125)

Por fim, aplicamos as condições iniciais

y⁢(0)=2 (3.126)
e2⋅0⁢[c1⁢cos⁡(0)+c2⁢sen⁡(0)]=2 (3.127)
c1=2. (3.128)

e, observando que

y′⁢(t)=e2⁢t⁢[(2⁢c1+c2)⁢cos⁡(t)+(2⁢c2−c1)⁢sen⁡(t)] (3.129)

temos

y′⁢(0)=0 ⇒e2⋅0⁢(2⋅2+c2)=0 (3.130)
⇒4+c2=0 (3.131)
⇒c2=−4. (3.132)

Concluímos que a solução do PVI é

y⁢(t)=e2⁢t⁢[2⁢cos⁡(t)−4⁢sen⁡(t)]. (3.133)
ER 3.2.2.

Resolva

y′′+4⁢y′+4⁢y=0, (3.134)
y⁢(0)=0,y′⁢(0)=1. (3.135)
Resolução.

Resolvemos a equação característica

r2+4⁢r+4=0, (3.136)

de modo que obtemos uma raiz dupla

r=−2. (3.137)

Logo, a solução geral da EDO é

y⁢(t)=(c1+c2⁢t)⁢e−2⁢t. (3.138)

Agora, aplicamos as condições iniciais

y⁢(0)=0⇒c1=0 (3.139)

e, observando que

y′⁢(t)=(c2−2⁢c1−2⁢c2⁢t)⁢e−2⁢t (3.140)
y′⁢(0)=1 ⇒(c2−2⋅0−2⁢c2⋅0)⁢e−2⋅0=1 (3.141)
⇒c2=1. (3.142)

Concluímos que a solução do PVI é

y⁢(t)=t⁢e−2⁢t. (3.143)
ER 3.2.3.

(Sistema massa-mola amortecido) Um sistema massa-mola amortecido sem força externa pode ser modelado pelo seguinte PVI

m⁢s′′+γ⁢s′+k⁢s=0,t>0, (3.144)
s⁢(0)=s0,s′⁢(0)=v0, (3.145)

onde s=s⁢(t) é a posição da massa (s=0 posição de repouso, s>0 mola estendida, m<0 mola contraída), m>0 massa, γ>0 coeficiente de resistência do meio, k>0 constante da mola, s0 posição inicial e v0 velocidade inicial da massa.

Mostre que s⁢(t)→0 quando t→∞, i.e. a massa tende ao repouso ao passar do tempo.

Resolução.

A equação característica associada é

m⁢r2+γ⁢r+k=0, (3.146)

cujas raízes são

r1,r2=−γ±γ2−4⁢m⁢k2⁢m. (3.147)

Vejamos as seguintes possibilidades:

  1. a)

    γ2−4⁢m⁢k≥0.

    Como m,k>0, temos que γ2−4⁢m⁢k<γ2 e, portanto, γ2−4⁢m⁢k<γ. Segue que r1,r2<0. Se r1≠r2, a solução geral é

    s⁢(t)=c1⁢er1⁢t+c2⁢er2⁢t. (3.148)

    Se r1=r2, a solução geral é

    s⁢(t)=(c1+c2⁢t)⁢e−γ2⁢m⁢t. (3.149)

    Em ambos os casos, s⁢(t)→0 quando t→0, devido aos expoentes negativos.

  2. b)

    γ2−4⁢m⁢k<0.

    Neste caso, a solução geral é

    s⁢(t)=e−γ2⁢m⁢t⁢[c1⁢cos⁡(γ2−4⁢m⁢k2⁢m⁢t)+c2⁢sen⁡(γ2−4⁢m⁢k2⁢m⁢t)]. (3.150)

    Novamente, como seno e cosseno são funções limitadas, temos que o termo exponencial domina para t→0. Ou seja, s⁢(t)→0 quando t→0.

3.2.4 Exercícios

E. 3.2.1.

Encontre a solução geral de

2⁢y′′−4⁢y′+4⁢y=0. (3.151)

y⁢(t)=[c1⁢sen⁡(t)+c2⁢cos⁡(t)]⁢et

E. 3.2.2.

Resolva

2⁢y′′+12⁢y′=−26⁢y, (3.152)
y⁢(0)=0,y′⁢(0)=2. (3.153)

y⁢(t)=e−3⁢t⁢sen⁡(2⁢t)

E. 3.2.3.

Encontre a solução geral de

3⁢y′′+27⁢y=18⁢y′ (3.154)

y⁢(t)=(c1+c2⁢t)⁢e3⁢t

E. 3.2.4.

Resolva

−y=2⁢y′+y′′, (3.155)
y⁢(0)=2,y′⁢(0)=0. (3.156)

y⁢(t)=(2+2⁢t)⁢e−t

Exemplo 3.2.3.

Mostre que o wronskiano de y1⁢(t)=eλ⁢t⁢cos⁡(μ⁢t) e y2⁢(t)=eλ⁢t⁢sen⁡(μ⁢t) é não nulo para qualquer μ≠0.


W⁢(y1,y2;t)=μ⁢e2⁢λ⁢t≠0

Exemplo 3.2.4.

Mostre que o wronskiano de y1⁢(t)=er⁢t e y2⁢(t)=t⁢er⁢t é não nulo para qualquer r.


W⁢(y1,y2;t)=e2⁢r⁢t≠0


Envie seu comentário

Aproveito para agradecer a todas/os que de forma assídua ou esporádica contribuem enviando correções, sugestões e críticas!

Opcional. Preencha seu nome para que eu possa lhe contatar.
Opcional. Preencha seu e-mail para que eu possa lhe contatar.
As informações preenchidas são enviadas por e-mail para o desenvolvedor do site e tratadas de forma privada. Consulte a política de uso de dados para mais informações.

Licença Creative Commons
Este texto é disponibilizado nos termos da Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional. Ícones e elementos gráficos podem estar sujeitos a condições adicionais.

Pedro H A Konzen
| | | |