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Equações diferenciais ordinárias

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3.3 EDO de ordem 2 não homogênea

Nesta seção, vamos discutir o caso de EDOs lineares de segunda ordem, não-homogêneas e com coeficientes constantes. Tais EDOs têm a forma

y′′+a⁢y′+b⁢y=g⁢(t), (3.157)

e pode-se mostrar que sua solução geral é dada como

y⁢(t)=c1⁢y1⁢(t)+c2⁢y2⁢(t)+yp⁢(t), (3.158)

onde y1 e y2 formam um conjunto fundamental de soluções666São soluções da equação homogênea associada e W⁢(y1,y2;t)≠0. da equação homogênea associada

y′′+a⁢y′+b⁢y=0 (3.159)

e yp é uma solução particular qualquer de (3.157).

3.3.1 Método da variação dos parâmetros

O método da variação dos parâmetros consiste em calcular uma solução particular de (3.157) da forma

yp⁢(t)=u1⁢(t)⁢y1⁢(t)+u2⁢(t)⁢y2⁢(t), (3.160)

onde y1 e y2 é um conjunto fundamental de soluções da equação homogênea associada, enquanto u1 e u2 são funções a serem determinadas.

Observamos que a única condição que temos para determinar u1 e u2 é a equação (3.157). Ou seja, temos uma equação e duas incógnitas. Para fechar o problema, impomos a seguinte condição extra

u1′⁢y1+u2′⁢y2=0. (3.161)

Com isso, temos

yp′⁢(t)=u1′⁢y1+u1⁢y1′+u2′⁢y2+u2⁢y2′ (3.162)
=u1y1′+u2y2′ (3.163)

e

yp′′⁢(t)=u1′⁢y1′+u1⁢y1′′
+u2′⁢y2′+u2⁢y2′′. (3.164)

Substituindo yp em (3.157), temos

g⁢(t)=yp′′+a⁢yp′+b⁢yp (3.165)
=(u1′y1′+u1y1′′+u2′y2′+u2y2′′)
+a⁢(u1⁢y1′+u2⁢y2′)
+b⁢(u1⁢y1+u2⁢y2) (3.166)
=u1′y1′+u2′y2′
+u1⁢(y1′′+a⁢y1′+b⁢y1)⏟=0
+u2⁢(y2′′+a⁢y2′+b⁢y2)⏟=0 (3.167)
=u1′y1′+u2′y2′. (3.168)

Ou seja, (3.161) e (3.168) formam o seguinte sistema de equações

u1′⁢y1+u2′⁢y2=0 (3.169)
u1′⁢y1′+u2′⁢y2′=g⁢(t) (3.170)

que têm u1′ e u2′ como incógnitas. Aplicando o método de Cramer777Gabriel Cramer, 1704 - 1752, matemático suíço. Fonte: Wikipédia: Gabriel Cramer., obtemos

u1′=|0y2g⁢(t)y2′||y1y2y1′y2′| (3.171)
=−y2⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t) (3.172)

e

u2′=|y10y1′g⁢(t)||y1y2y1′y2′| (3.173)
=y1⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t). (3.174)

Ou, ainda, por integração temos

u1⁢(t)=−∫y2⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t (3.175)

e

u2⁢(t)=∫y1⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t. (3.176)

Por tudo isso, concluímos que uma solução particular de (3.157) é dada por

yp⁢(t)=−y1⁢(t)⁢∫y2⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t
+y2⁢(t)⁢∫y1⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t. (3.177)
Exemplo 3.3.1.

Vamos calcular a solução geral de

y′′−y=e2⁢t. (3.178)

Começamos determinando um conjunto fundamental de soluções y1=y1⁢(t) e y2=y2⁢(t) da equação homogênea associada

y′′−y=0. (3.179)

A equação característica associada é

r2−1=0, (3.180)

cujas raízes são r1=−1 e r2=1. Segue que

y1⁢(t)=e−tey2⁢(t)=et. (3.181)

Agora, buscamos por uma solução particular de (3.178) da forma

yp⁢(t)=u1⁢(t)⁢y1⁢(t)+u2⁢(t)⁢y2⁢(t), (3.182)

onde u1 é dada em (3.175) e u2 por (3.176). Ambas expressões requer o cálculo do wronskiano

W⁢(y1,y2;t)=|y1y2y1′y2′| (3.183)
=y1y2′−y2y1′ (3.184)
=e−tet+ete−t (3.185)
=2. (3.186)

Com isso, temos

u1⁢(t)=−∫y2⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t (3.187)
=−∫et⁢e2⁢t2dt (3.188)
=−12∫e3⁢tdt (3.189)
=−16e3⁢t (3.190)

e

u2⁢(t)=∫y1⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t (3.191)
=∫e−t⁢e2⁢t2dt (3.192)
=12∫etdt (3.193)
=12et (3.194)

Desta forma, obtemos a solução particular

yp⁢(t)=u1⁢(t)⁢y1⁢(t)+u2⁢(t)⁢y2⁢(t) (3.195)
=−16e3⁢te−t+12etet (3.196)
=−16e2⁢t+12e2⁢t (3.197)
=13e2⁢t. (3.198)

Observamos que a solução particular é um múltiplo do termo não homogêneo da EDO (3.178). Isso não é apenas um acaso e vamos explorar isso mais adiante no texto.

Por fim, concluímos que a solução geral de (3.178) é

y⁢(t)=c1⁢y1⁢(t)+c2⁢y2⁢(t)+yp⁢(t) (3.199)
=c1e−t+c2et+13e2⁢t. (3.200)

3.3.2 Método dos coeficientes a determinar

O métodos dos coeficientes a determinar consiste em buscar por uma solução particular na forma de uma combinação linear de funções elementares apropriadas. Tais funções são inferidas a partir do termo não homogêneo da equação.

𝒈⁢(𝒕)=𝒄⁢𝒆𝒔⁢𝒕

Uma equação da forma

y′′+a⁢y′+b⁢y=c⁢es⁢t (3.201)

com s≠r1,r2, onde r1 e r2 são raízes da equação característica, admite solução particular

yp⁢(t)=A⁢es⁢t, (3.202)

onde A é uma constante a determinar.

Exemplo 3.3.2.

Vamos calcular uma solução particular para

y′′−y=e2⁢t. (3.203)

Pelo método dos coeficientes a determinar, buscamos por uma solução particular da forma

yp⁢(t)=A⁢e2⁢t, (3.204)

observando que r1=−1 e r2=1 são raízes da equação característica associada.

Substituindo yp na EDO, obtemos

e2⁢t=y′′−y (3.205)
=(Ae2⁢t)′′−Ae2⁢t (3.206)
=(4A−A)e2⁢t (3.207)
=3Ae2⁢t. (3.208)

Segue que

3⁢A=1⇒A=13. (3.209)

Daí, concluímos que

yp⁢(t)=13⁢e2⁢t (3.210)

é solução particular da EDO.

Observação 3.3.1.
  1. a)

    s=r1. Uma equação da forma

    y′′+a⁢y′+b⁢y=c⁢er1⁢t, (3.211)

    onde r1 é raiz simples da equação característica associada, admite solução particular

    yp⁢(t)=A⁢t⁢er1⁢t. (3.212)
  2. b)

    s=r. Uma equação da forma

    y′′+a⁢y′+b⁢y=c⁢er⁢t, (3.213)

    onde r é raiz dupla da equação característica associada, admite solução particular

    yp⁢(t)=A⁢t2⁢er⁢t. (3.214)

𝒈⁢(𝒕)=𝒄𝒏⁢𝒕𝒏+𝒄𝒏−𝟏⁢𝒕𝒏−𝟏+⋯+𝒄𝟎

Uma equação da forma

y′′+a⁢y′+b⁢y=cn⁢tn+cn−1⁢tn−1+⋯+c0 (3.215)

admite solução particular

yp⁢(t)=An⁢tn+An−1⁢tn−1+⋯+A0, (3.216)

onde An, An−1, …, A0 são constantes a determinar.

Exemplo 3.3.3.

Vamos calcular uma solução particular para

y′′−4⁢y=t. (3.217)

Pelo método dos coeficientes a determinar, buscamos por uma solução particular da forma

yp⁢(t)=A1⁢t+A0. (3.218)

Substituindo yp na EDO, obtemos

t=y′′−4⁢y (3.219)
=(A1t+A0)′′−4(A1t+A0) (3.220)
=−4A1t−4A0. (3.221)

Segue que

−4⁢A1=1
⇒A1=−14, (3.222)
−4⁢A0=0
⇒A0=0. (3.223)

Daí, concluímos que

yp⁢(t)=−14⁢t (3.224)

é solução particular da EDO.

𝒈⁢(𝒕)=𝒄𝟏⁢𝐬𝐞𝐧⁡(𝜷⁢𝒕)+𝒄𝟐⁢𝐜𝐨𝐬⁡(𝜷⁢𝒕)

Uma equação da forma

y′′+a⁢y′+b⁢y=c1⁢sen⁡(β⁢t)+c2⁢cos⁡(β⁢t) (3.225)

admite solução particular

yp⁢(t)=ts⁢[A1⁢sen⁡(β⁢t)+A2⁢cos⁡(β⁢t)], (3.226)

onde s é o menor inteiro tal que yp não seja solução da equação homogênea associada e A1 e A2 são constantes a determinar.

Exemplo 3.3.4.

Vamos calcular uma solução particular para

y′′+4⁢y=cos⁡(2⁢t). (3.227)

Pelo método dos coeficientes a determinar, buscamos por uma solução particular da forma

yp⁢(t)=t⁢[A1⁢sen⁡(2⁢t)+A2⁢cos⁡(2⁢t)], (3.228)

observando que y1⁢(t)=cos⁡(2⁢t) e y2⁢(t)=sen⁡(2⁢t) formam um conjunto fundamental de solução para a equação homogênea associada.

Substituindo yp na EDO, obtemos

cos⁡(2⁢t)=y′′+4⁢y (3.229)
=[A1tsen(2t)+A2tcos(2t)]′′
+4⁢[A1⁢t⁢sen⁡(2⁢t)+A2⁢t⁢cos⁡(2⁢t)] (3.230)
=4A1cos(2t)−4A2sen(2t) (3.231)

Segue que

4⁢A1=1
⇒A1=14, (3.232)
−4⁢A2=0
⇒A2=0. (3.233)

Daí, concluímos que

yp⁢(t)=14⁢t⁢sen⁡(2⁢t). (3.234)

é solução particular da EDO.

Observação 3.3.2.(Resumo)
g⁢(t) yp⁢(t)
eα⁢t⁢(cn⁢tn+cn−1⁢tn−1+⋯+c0) ts⁢eα⁢t⁢(An⁢tn+⋯+A0)
eα⁢t⁢[c1⁢sen⁡(β⁢t)+c2⁢cos⁡(β⁢t)] ts⁢eα⁢t⁢[A1⁢sen⁡(β⁢t)+A2⁢cos⁡(β⁢t)]

s=0,1,2, sendo o menor valor que garanta que yp não seja solução da equação homogênea associada.

3.3.3 Exercícios resolvidos

ER 3.3.1.

Use o método da variação dos parâmetros para obter uma solução geral de

y′′−2⁢y′−3⁢y=e−t+sen⁡(t). (3.235)
Resolução.

Primeiramente, resolvemos a equação homogênea associada

y′′−2⁢y′−3⁢y=0. (3.236)

Para tanto, buscamos as raízes da equação característica associada

r2−2⁢r−3=0, (3.237)

as quais são

r=2±4−4⋅1⋅(−3)2, (3.238)

i.e. r1=−1 e r2=3. Logo,

y1⁢(t)=e−tey2⁢(t)=e3⁢t (3.239)

formam um conjunto fundamental de soluções da EDO homogênea.

Agora, buscamos por uma solução particular

yp⁢(t)=u1⁢(t)⁢y1⁢(t)+u2⁢(t)⁢y2⁢(t) (3.240)

para a equação não homogênea. Os parâmetros variáveis u1=u1⁢(t) e u2=u2⁢(t) dependem do wronskiano

W⁢(y1,y2;t)=|y1y2y1′y2′| (3.241)
=|e−te3⁢t−e−t3⁢e3⁢t| (3.242)
=4e2⁢t. (3.243)

Mais especificamente, eles são dados por

u1⁢(t)=−∫y2⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t (3.244)
=−∫e3⁢t⁢[e−t+sen⁡(t)]4⁢e2⁢tdt (3.245)
=−14t−18et[sen(t)−cos(t)] (3.246)

e

u2⁢(t)=∫y1⁢(t)⁢g⁢(t)W⁢(y1,y2;t)⁢𝑑t (3.247)
=∫e−t⁢[e−t+sen⁡(t)]4⁢e2⁢tdt (3.248)
=−116e−4⁢t−340e−3⁢t[sen(t)+cos(t)] (3.249)

Com isso, temos que a solução particular é

yp⁢(t)={−14⁢t−18⁢et⁢[sen⁡(t)−cos⁡(t)]}⁢e−t
+{−116⁢e−4⁢t−340⁢e−3⁢t⁢[sen⁡(t)+cos⁡(t)]}⁢e3⁢t (3.250)
=−(116+14t)e−t+110cos(t)−15sen(t). (3.251)

Concluímos que a solução geral é

y⁢(t)=c1⁢e−t+c2⁢e3⁢t
−(116+14⁢t)⁢e−t+110⁢cos⁡(t)−15⁢sen⁡(t) (3.252)
=c1e−t+c2e3⁢t
−t4⁢e−t+110⁢cos⁡(t)−15⁢sen⁡(t). (3.253)
ER 3.3.2.

Use o método dos coeficientes a determinar para obter uma solução geral de

y′′−2⁢y′−3⁢y=e−t+sen⁡(t). (3.254)
Resolução.

Esta é a mesma equação (3.3.1) que foi resolvida no ER.3.3.1. Das contas realizadas, sabemos que

y1⁢(t)=e−tey2⁢(t)=e3⁢t (3.255)

são soluções fundamentais da equação homogênea associada.

Disso e com base no termo não homogêneo

g⁢(t)=e−t+sen⁡(t), (3.256)

buscamos por uma solução particular da forma

yp⁢(t)=A⁢t⁢e−t+B⁢sen⁡(t)+C⁢cos⁡(t). (3.257)

Substituindo na EDO, obtemos

e−t+sen⁡(t)=yp′′−2⁢yp′−3⁢yp (3.258)
=−4Ae−t+(2C−4B)sen(t)−(2B+4C)cos(t). (3.259)

Logo, devemos ter

−4⁢A=1⇒A=−14 (3.260)

e

−4⁢B+2⁢C=1 (3.261)
−2⁢B−4⁢C=0 (3.262)

o que nos leva a C=1/10 e B=−1/5.

Com tudo isso, concluímos que a solução geral é

y⁢(t)=c1⁢e−t+c2⁢e3⁢t
−t4⁢e−t−15⁢sen⁡(t)+110⁢cos⁡(t). (3.263)

3.3.4 Exercício

E. 3.3.1.

Resolva

y′′+y′−2⁢y=e2⁢t (3.264)

usando

  1. a)

    o método da variação dos parâmetros.

  2. b)

    o método dos coeficientes a determinar.


y⁢(t)=c1⁢e−2⁢t+c2⁢et+14⁢e2⁢t

E. 3.3.2.

Resolva

y′′+y′−2⁢y=e−2⁢t. (3.265)

y⁢(t)=(c1−t3)⁢e−2⁢t+c2⁢et

E. 3.3.3.

Resolva

y′′+2⁢y′+y=e−t (3.266)

usando o método dos coeficientes a determinar.


y⁢(t)=(c1+c2⁢t+t22)⁢e−t

E. 3.3.4.

Resolva

y′′+4⁢y=t⁢cos⁡(2⁢t). (3.267)

y⁢(t)=(c1+t16)⁢cos⁡(2⁢t)+(c2+t28)⁢sen⁡(2⁢t)

E. 3.3.5.

Mostre que se y1=y1⁢(t) é solução de

y′′+b⁢y′+c⁢y=g1⁢(t) (3.268)

e y2=y2⁢(t) é solução de

y′′+b⁢y′+c⁢y=g2⁢(t), (3.269)

então y⁢(t)=y1⁢(t)+y2⁢(t) é solução de

y′′+b⁢y′+c⁢y=g1⁢(t)+g2⁢(t). (3.270)

Dica: Basta usar que y1′′+b⁢y1′+c⁢y1=g1⁢(t) e que y2′′+b⁢y2′+c⁢y2=g2⁢(t).

E. 3.3.6.

Resolva

y′′+3⁢y′+2⁢y=t,t>0, (3.271)
y⁢(0)=0,y′⁢(0)=0. (3.272)

y⁢(t)=−14⁢e−2⁢t+e−t+t2−34

E. 3.3.7.

Considere um sistema massa-mola modelado por

m⁢s′′+γ⁢s′+k⁢s=cos⁡(t),t>0, (3.273)
s⁢(0)=s0,s′⁢(0)=v0, (3.274)

onde m>0 é a massa, γ>0 é o coeficiente de resistência do meio, k>0 é a constante da mola, s=s⁢(t) é posição da massa (s=0 posição de repouso, s>0 mola esticada, s<0 mola contraída), s0 é a posição inicial e v0 é a velocidade inicial da massa.

Supondo que γ2−4⁢m⁢k=0, o que pode se dizer sobre o comportamento de s=s⁢(t) para valores de t muito grandes.


s⁢(t)≈1γ2+(k−m)2⁢(k−mγ⁢cos⁡(t)+sen⁡(t))


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Pedro H A Konzen
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