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Cálculo II

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2.2 Diferenciais e aproximações lineares

2.2.1 Plano tangente

Seja z=f⁢(x,y). Definimos o plano tangente à superfície z=f⁢(x,y) no ponto (x0,y0,f⁢(x0,y0)) como

z=fx⁢(x0,y0)⁢(x−x0)+fy⁢(x0,y0)⁢(y−y0)+f⁢(x0,y0). (2.108)

A Figura 2.3 ilustra o plano tangente à superfície z=f⁢(x,y) no ponto (x0,y0,f⁢(x0,y0)).

Refer to caption
Figura 2.3: Plano tangente à superfície z=f⁢(x,y) no ponto (x0,y0,f⁢(x0,y0)).

O plano tangente é o plano determinado pelas retas tangentes à superfície z=f⁢(x,y) na direção do eixo x e na direção do eixo y no ponto (x0,y0,f⁢(x0,y0)). De fato, a reta tangente à superfície z=f⁢(x,y) na direção do eixo x no ponto (x0,y0,f⁢(x0,y0)) tem equação

z=fx⁢(x0,y0)⁢(x−x0)+f⁢(x0,y0),y=y0, (2.109)

e a reta tangente à superfície z=f⁢(x,y) na direção do eixo y neste mesmo ponto tem equação

z=fy⁢(x0,y0)⁢(y−y0)+f⁢(x0,y0),x=x0. (2.110)

Lembremos que um plano fica determinado por seus vetores diretores e por um ponto de ancoragem. Com isso, escolhendo

u→=(x−x0⁢,0,fx⁢(x0,y0)⁢(x−x⁢0)), (2.111)
v→=(0,y−y0,fy⁢(x0,y0)⁢(y−y⁢0)). (2.112)

e A(x0,y0,f(x0,y0) como um ponto de ancoragem do plano, temos a equação do plano fica determinada por

[A⁢P→,u→,v→]=0, (2.113)

onde P⁢(x,y,z) é um ponto qualquer do plano e [⋅,⋅,⋅] é o produto misto de vetores. Calculamos

0=[x−x0y−y0z−f⁢(x0,y0)x−x00fx⁢(x0,y0)⁢(x−x0)0y−y0fy⁢(x0,y0)⁢(y−y0)] (2.114)
=(x−x0)(y−y0)(z−f(x0,y0))−(x−x0)2(y−y0)fx(x0,y0)
−(x−x0)⁢(y−y0)2⁢fy⁢(x0,y0) (2.115)
=z−f(x0,y0)−fx(x0,y0)(x−x0)−fy(x0,y0)(y−y0), (2.116)

donde concluímos que a equação do plano tangente é dada por (2.108).

Exemplo 2.2.1.(Plano tangente)

Seja f⁢(x,y)=−x2−y2+2. A derivada parcial de f em relação a x é fx⁢(x,y)=−2⁢x e a derivada parcial de f em relação a y é fy⁢(x,y)=−2⁢y. No ponto (12,12), temos

fx⁢(12,12)=−2⁢(12)=−1, (2.117)
fy⁢(12,12)=−2⁢(12)=−1, (2.118)
f⁢(12,12)=−(12)2−(12)2+2=32. (2.119)

Portanto, o plano tangente à superfície z=f⁢(x,y) no ponto (12,12,32) é

z=−1⁢(x−12)−1⁢(y−12)+32. (2.120)

Assim, temos que o plano tangente a superfície z=f⁢(x,y) no ponto (12,12,32) é

z=−x−y+52. (2.121)

Verifique!

2.2.2 Linearização

A linearização de uma função f⁢(x,y) no ponto (x0,y0) é a função linear

L⁢(x,y)=fx⁢(x0,y0)⁢(x−x0)+fy⁢(x0,y0)⁢(y−y0)+f⁢(x0,y0), (2.122)

i.e., a função que representa o plano tangente à superfície z=f⁢(x,y) no ponto (x0,y0,f⁢(x0,y0)). Voltando a Figura 2.3, temos lá que o plano tangente à superfície é a representação gráfica da linearização de f no ponto (x0,y0). Vamos denotar o erro em se aproximar f⁢(x,y) por L⁢(x,y) por ε=L⁢(x,y)−f⁢(x,y).

Exemplo 2.2.2.(Linearização)

Seja f⁢(x,y)=−x2−y2+2. A linearização de f no ponto (12,12) é

L⁢(x,y)=fx⁢(12,12)⁢(x−12)+fy⁢(12,12)⁢(y−12)+f⁢(12,12) (2.123)
=−1(x−12)−1(y−12)+32 (2.124)

Donde concluímos que L⁢(x,y)=−x−y+52. A Tabela 2.1 apresenta um estudo do comportamento do erro ε em se aproximar f⁢(x,y) por sua linearização L⁢(x,y).

Tabela 2.1: Estudo do erro em se aproximar f⁢(x,y)=−x2−y2+2 por sua linearização L⁢(x,y) no ponto (x0,y0)=(12,12). A distância entre (x,y) e (x0,y0) é denotada por h.
x y h f⁢(x,y) L⁢(x,y) |ε|
2.00 2.00 2.12 -6.00 -1.50 4.50
1.00 1.00 0.71 0.00 0.50 0.50
0.75 0.75 0.35 0.87 1.00 0.13
0.60 0.60 0.14 1.28 1.30 0.02
0.50 0.50 0.00 1.50 1.50 0.00

2.2.3 Diferenciabilidade

Dizemos que uma função z=f⁢(x,y) é diferenciável no ponto (x0,y0) quando existem as derivadas parciais fx⁢(x0,y0) e fy⁢(x0,y0) e

lim(Δ⁢x,Δ⁢y)→(0,0)Δ⁢z−fx⁢(x0,y0)⁢Δ⁢x−fy⁢(x0,y0)⁢Δ⁢y(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2=0, (2.125)

com Δ⁢z=f⁢(x0+Δ⁢x,y0+Δ⁢y)−f⁢(x0,y0), Δ⁢x=x−x0 e Δ⁢y=y−y0.

Exemplo 2.2.3.

Vamos verificar se f⁢(x,y)=−x2−y2+2 é diferenciável no ponto (12,12). Temos que

fx⁢(12,12)=−1, (2.126)
fy⁢(12,12)=−1, (2.127)
f⁢(12,12)=32. (2.128)

Agora, calculando o limite

lim(Δ⁢x,Δ⁢y)→(0,0)Δ⁢z−fx⁢(12,12)⁢Δ⁢x−fy⁢(12,12)⁢Δ⁢y(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2 (2.129)
=lim(Δ⁢x,Δ⁢y)→(0,0)f⁢(12+Δ⁢x,12+Δ⁢y)−f⁢(12,12)+Δ⁢x+Δ⁢y(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2 (2.130)
=lim(Δ⁢x,Δ⁢y)→(0,0)−(12+Δ⁢x)2−(12+Δ⁢y)2+2−32+Δ⁢x+Δ⁢y(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2 (2.131)
=lim(Δ⁢x,Δ⁢y)→(0,0)−14−Δ⁢x−(Δ⁢x)2−14−Δ⁢y−(Δ⁢y)2+2−32+Δ⁢x+Δ⁢y(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2 (2.132)
=lim(Δ⁢x,Δ⁢y)→(0,0)−(Δ⁢x)2−(Δ⁢y)2(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2 (2.133)
=lim(Δ⁢x,Δ⁢y)→(0,0)−(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2=0. (2.134)

Portanto, f⁢(x,y)=−x2−y2+2 é diferenciável no ponto (12,12).

Observação 2.2.1.(Funções diferenciáveis de várias variáveis)

A definição de diferenciabilidade de uma função de várias variáveis é uma generalização da definição acima (2.125). Por exemplo, uma função f⁢(x,y,z) é diferenciável no ponto (x0,y0,z0) quando existem as derivadas parciais fx⁢(x0,y0,z0), fy⁢(x0,y0,z0) e fz⁢(x0,y0,z0) e

lim(Δ⁢x,Δ⁢y,Δ⁢z)→(0,0,0)[Δw−fx(x0,y0,z0)Δx−fy(x0,y0,z0)Δy
−fz(x0,y0,z0)Δz]1(Δ⁢x)2+(Δ⁢y)2+(Δ⁢z)2=0, (2.135)

com Δ⁢w=f⁢(x0+Δ⁢x,y0+Δ⁢y,z0+Δ⁢z)−f⁢(x0,y0,z0), Δ⁢x=x−x0, Δ⁢y=y−y0 e Δ⁢z=z−z0.

Uma função é dita ser diferenciável em toda parte (de seu domínio) quando ela é diferenciável em todos os pontos de seu domínio. Por exemplo, a função f⁢(x,y)=−x2−y2+2 é diferenciável em toda parte. Verifique!

Teorema 2.2.1.(Diferenciabilidade e continuidade)

Se uma função f⁢(x,y) é diferenciável em um ponto (x0,y0), então ela é contínua nesse ponto.

Demonstração.

Consultemos o E.2.2.6. ∎

Exemplo 2.2.4.(Contra-exemplo)

A recíproca do Teorema 2.2.1 não é verdadeira. Por exemplo, a função f⁢(x,y)=x2+y2 é contínua no ponto (0,0) (verifique!), mas não é diferenciável nesse ponto. De fato, temos que

fx⁢(x,y)=xx2+y2, (2.136)
fy⁢(0,0)=yx2+y2, (2.137)

sendo que fx⁢(0,0) e fy⁢(0,0) não existem. Portanto, f⁢(x,y)=x2+y2 não é diferenciável no ponto (0,0).

Teorema 2.2.2.

Se todas as derivadas parciais de primeira ordem de uma função f⁢(x,y) são contínuas em um ponto (x0,y0), então f é diferenciável nesse ponto.

Demonstração.

A demonstração deste teorema foge do escopo destas notas de aula. Para a demonstração, consulte [2]. ∎

Exemplo 2.2.5.

A função

f⁢(x,y,z)=x2⁢y+ey⁢z+z3 (2.138)

é diferenciável em toda parte, pois suas derivadas parciais de primeira ordem são

fx⁢(x,y,z)=2⁢x⁢y, (2.139)
fy⁢(x,y,z)=x2+z⁢ey⁢z, (2.140)
fz⁢(x,y,z)=y⁢ey⁢z+3⁢z2, (2.141)

que são funções contínuas em toda parte (verifique!).

2.2.4 Diferenciais

Motivadas/os pelo que vimos até aqui nesta seção, definimos a diferencial total de uma função f⁢(x,y) por

d⁢z=fx⁢(x,y)⁢d⁢x+fy⁢(x,y)⁢d⁢y, (2.142)

onde d⁢x e d⁢y são incrementos infinitesimais de x e y, respectivamente.

Uma aplicação da diferencial total é a estimativa de variação de uma função, i.e., Δ⁢z≈d⁢z.

Exemplo 2.2.6.(Estimativa de variação)

Seja V=a2⁢h o volume de um paralelepípedo de base quadrada de lado a e altura h. A diferencial total de V é

d⁢V=2⁢a⁢h⁢d⁢a+a2⁢d⁢h. (2.143)

Suponha que a=2⁢m e h=5⁢m. Se a aumenta 0.01⁢m e h aumenta 0.02⁢m, então a variação estimada do volume é

d⁢V=2⁢(2)⁢(5)⁢(0,01)+(2)2⁢(0,02)=0,2+0,08=0,28⁢m3. (2.144)

Observemos que o valor real da variação do volume é

Δ⁢V=V⁢(2.01,5.02)−V⁢(2,5)=(2.01)2⁢(5.02)−(2)2⁢(5) (2.145)
=0,2813m3. (2.146)

O que é muito próximo do valor estimado pelo diferencial total d⁢V.

Para funções de várias variáveis, a diferencial total é definida de maneira análoga. Por exemplo, a diferencial total de uma função f⁢(x,y,z) é

d⁢w=fx⁢(x,y,z)⁢d⁢x+fy⁢(x,y,z)⁢d⁢y+fz⁢(x,y,z)⁢d⁢z, (2.147)

onde d⁢x, d⁢y e d⁢z são incrementos infinitesimais de x, y e z, respectivamente.

2.2.5 Exercícios

E. 2.2.1.

Para cada uma das funções abaixo, determine o plano tangente à superfície z=f⁢(x,y) no ponto (x0,y0,f⁢(x0,y0)).

  1. a)

    f⁢(x,y)=2⁢x2+3⁢y2, (x0,y0)=(1,1)

  2. b)

    f⁢(x,y)=ex⁢y, (x0,y0)=(0,0)

  3. c)

    f⁢(x,y)=e−x⁢cos⁡(π⁢y), (x0,y0)=(0,1)

  4. d)

    f⁢(x,y)=2⁢x−5⁢y+3, (x0,y0)=(2,−1)


a) z=4⁢x+6⁢y−5. b) z=1. c) z=x−1. e) z=2⁢x−5⁢y+3.

E. 2.2.2.

Para cada uma das funções abaixo, determine a linearização de f no ponto (x0,y0).

  1. a)

    f⁢(x,y)=2⁢y−3⁢x+1, (x0,y0)=(1,2)

  2. b)

    f⁢(x,y)=x2⁢y3, (x0,y0)=(1,1)

  3. c)

    f⁢(x,y)=ln⁡(x2⁢y+1), (x0,y0)=(1,0)


a) L⁢(x,y)=2⁢y−3⁢x+1. b) L⁢(x,y)=1+2⁢(x−1)+3⁢(y−1). c) L⁢(x,y)=ln⁡(2)+y2.

E. 2.2.3.

Em cada item abaixo, use uma linearização apropriada para estimar o valor da função no ponto indicado.

  1. a)

    f⁢(x,y)=x2⁢y+3⁢x⁢y2, f⁢(1.01,0.99)?

  2. b)

    g⁢(x,y)=x−yx2+y, g⁢(−2.98,1.03)?


a) f⁢(1.01,0.99)≈L⁢(1+0.01,1−0.01)=3.98. b) g⁢(−2.98,1.03)≈L⁢(−3+0.02,1+0.03)=−0.4046.

E. 2.2.4.

Calcule a diferencial total de cada uma das funções abaixo.

  1. a)

    f⁢(x,y)=2⁢x2+3⁢y2

  2. b)

    g⁢(x,y)=x⁢ex⁢y

  3. c)

    h⁢(x,y,z)=e−x⁢y+sen⁡(x⁢y⁢z)


a) d⁢z=4⁢x⁢d⁢x+6⁢y⁢d⁢y. b) d⁢g=ex⁢y⁢(1+x⁢y)⁢d⁢x+x2⁢ex⁢y⁢d⁢y. c) d⁢h=(−y⁢e−x⁢y+y⁢z⁢cos⁡(x⁢y⁢z))⁢d⁢x+(−x⁢e−x⁢y+x⁢z⁢cos⁡(x⁢y⁢z))⁢d⁢y+(x⁢y⁢cos⁡(x⁢y⁢z))⁢d⁢z.

E. 2.2.5.

Em cada item abaixo, use da diferencial total para estimar a variação da função quando x e y variam de acordo com os valores indicados.

  1. a)

    f⁢(x,y)=x⁢y2+2⁢x⁢y2, x aumenta de 1 para 1.01 e y diminui de 1 para 0.99.

  2. b)

    g⁢(x,y)=x+yx2+y, x aumenta de 2 para 2.02 e y aumenta de −3 para −2.94.


a) d⁢f=−0.03. b) d⁢g=0.22.

E. 2.2.6.(Teorema 2.2.1)

Mostre que se f⁢(x,y) é diferenciável no ponto (x0,y0), então ela é contínua nesse ponto.


Dica: basta mostrar que lim(x,y)→(x0,y0)[f⁢(x,y)−f⁢(x0,y0)]=0.


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Pedro H A Konzen
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