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Equações diferenciais ordinárias

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2.1 Equação linear

A forma geral de uma EDO linear de primeira ordem é

P⁢(t)⁢d⁢yd⁢t+Q⁢(t)⁢y=G⁢(t), (2.1)

onde P⁢(t)≠0, Q⁢(t) e G⁢(t) são funções de t. Esta pode ser reescrita na forma

d⁢yd⁢t+p⁢(t)⁢y=g⁢(t), (2.2)

escolhendo p⁢(t)=Q⁢(t)/P⁢(t) e g⁢(t)=G⁢(t)/P⁢(t).

2.1.1 EDO autônoma e homogênea

Primeiramente, vamos considerar o caso em que p⁢(t)≡a≠0 (constante) e g⁢(t)≡0, i.e.

d⁢yd⁢t+a⁢y=0. (2.3)

Observamos que y⁢(t)≡0 é solução trivial. Agora, para y⁢(t)≠0, podemos reescrever esta equação da seguinte forma

d⁢yd⁢t=−a⁢y (2.4)
1y⁢d⁢yd⁢t=−a (2.5)

Integrando em relação a t, obtemos

∫1y⁢d⁢yd⁢t⁢𝑑t=−∫a⁢𝑑t (2.6)
ln⁡|y|=−a⁢t+c (2.7)
eln⁡|y|=e−a⁢t+c (2.8)
eln⁡|y|=e−a⁢t⁢ec (2.9)
|y|=c⁢e−a⁢t, (2.10)

onde c é uma constante indeterminada. Da definição do valor absoluto, temos esta última equação nos fornece que

y>0 (2.11)
⇒y=|y|=ce−a⁢t (2.12)

e

y<0 (2.13)
⇒−y=|y|=ce−a⁢t (2.14)
⇒y=−ce−a⁢t. (2.15)

Lembrando que c é uma constante indeterminada, em qualquer caso, temos

y⁢(t)=c⁢e−a⁢t. (2.16)

Observamos, ainda, que tomando c=0 esta última equação também engloba a solução trivial y⁢(t)≡0.

Portanto, concluímos que a solução geral de (2.3) é

y⁢(t)=c⁢e−a⁢t. (2.17)
Exemplo 2.1.1.

Vamos resolver o seguinte PVI

y′−y=0,t>0, (2.18)
y⁢(0)=1. (2.19)

Começamos calculando a solução geral da EDO:

y′=y (2.20)
1y⁢d⁢yd⁢t=1 (2.21)
∫1y⁢d⁢yd⁢t⁢𝑑t=∫1⁢𝑑t (2.22)
ln⁡|y|=t+c (2.23)
eln⁡|y|=et+c (2.24)
y⁢(t)=c⁢et. (2.25)

Por fim, aplicamos a condição inicial

y⁢(0)=1 (2.27)
c⁢e0=1 (2.28)
c=1 (2.29)

Concluímos que a solução do PVI é

y⁢(t)=et. (2.30)
Refer to caption
Figura 2.1: Solução do problema de valor inicial tratado no Exemplo 2.1.1.
1from sympy import *
2t = symbols('t')
3y = symbols('y', cls=Function)
4edo = Eq(y(t).diff(t)-y(t),0)
5sol = dsolve(edo,y(t))
6C1 = symbols('C1')
7cs = solve(Eq(sol.rhs.subs(t,0),1),dict=True)
8sol = sol.subs(cs[0])
Eq(y(t), exp(t))

2.1.2 Método dos fatores integrantes

Vejamos, agora, o caso de uma EDO da forma

d⁢yd⁢t+a⁢y=g⁢(t). (2.31)

O método dos fatores integrantes consiste em multiplicarmos a equação por uma função μ=μ⁢(t) (fator integrante) de forma que

μ⁢d⁢yd⁢t+μ⁢a⁢y=dd⁢t⁢(μ⁢y). (2.32)

Pela regra do produto para derivada, temos que

μ⁢d⁢yd⁢t+μ⁢a⁢y=μ⁢d⁢yd⁢t+μ′⁢y. (2.33)

Ou seja, tal função μ deve satisfazer a seguinte EDO

μ′=a⁢μ. (2.34)

Usando o mesmo procedimento utilizado para (2.3), obtemos que

μ⁢(t)=c⁢ea⁢t. (2.35)

Observamos que qualquer escolha de c≠0 é apropriada e, por simplicidade, escolhemos c=1. Ou seja, escolhemos o fator integrante

μ⁢(t)=ea⁢t. (2.36)

Agora, retornamos a equação (2.31). Multiplicando-a pelo fator integrante μ⁢(t)=ea⁢t, obtemos

μ⁢d⁢yd⁢t+μ⁢a⁢y=μ⁢g⁢(t) (2.37)
dd⁢t⁢(μ⁢y)=μ⁢g⁢(t) (2.38)
∫d⁢(μ⁢y)=∫μ⁢g⁢(t)⁢𝑑t (2.39)
μ⁢y=∫μ⁢g⁢(t)⁢𝑑t+c (2.40)
y=1μ⁢[∫μ⁢g⁢(t)⁢𝑑t+c]. (2.41)

Portanto, concluímos que

y⁢(t)=e−a⁢t⁢[∫g⁢(t)⁢ea⁢t⁢𝑑t+c] (2.43)

é a solução geral de (2.31).

Exemplo 2.1.2.

Vamos calcular a solução geral da seguinte EDO

y′−y=1. (2.44)

Aplicando o método dos fatores integrantes, temos

μ⁢y′−μ⁢y=(μ⁢y)′ (2.45)
=μ′y+μy′. (2.46)

Ou seja, devemos escolher μ tal que

μ′=−μ (2.47)
1μ⁢d⁢μd⁢t=−1 (2.48)
∫1μ⁢𝑑μ=−∫1⁢𝑑t (2.49)
ln⁡|μ|=−t+c (2.50)
μ=c⁢e−t (2.51)

Por simplicidade, escolhemos μ=e−t.

Com isso, a EDO (2.44) pode ser reescrita como

dd⁢t⁢(μ⁢y)=μ⋅1 (2.52)
dd⁢t⁢(e−t⁢y)=e−t. (2.53)

Integrando, obtemos

e−t⁢y=∫e−t⁢𝑑t (2.54)
e−t⁢y⁢(t)=−e−t+c (2.55)
y⁢(t)=−et⁢e−t+c⁢et (2.56)
y⁢(t)=−1+c⁢et, (2.57)

a qual é a solução geral. A figura abaixo contém esboços dos gráficos da solução geral para diferentes valores de c.

Refer to caption
Figura 2.2: Esboço do gráfico da solução geral para: (verde) c=1, (vermelho) c=0 e (azul) c=−1.
1from sympy import *
2y = symbols('y', cls=Function)
3t,C1 = symbols('t,C1')
4edo = Eq(diff(y(t),t)-y(t),1)
5sg = dsolve(edo)
Eq(y(t), C1*exp(t) - 1)

2.1.3 Caso geral

O caso geral de uma EDO linear de primeira ordem

y′+p⁢(t)⁢y=g⁢(t) (2.58)

também pode ser resolvido pelo método dos fatores integrantes. Neste caso, o fator integrante μ=μ⁢(t) deve ser escolhido de forma que

μ⁢y′+μ⁢p⁢(t)⁢y=(μ⁢y)′ (2.59)
μ⁢y′+μ⁢p⁢(t)⁢y=μ′⁢y+μ⁢y′, (2.60)

ou seja

μ′=p⁢(t)⁢μ. (2.61)

Integrando, obtemos o fator integrante

μ⁢(t)=e∫p⁢(t)⁢𝑑t. (2.62)

Usando este fator integrante, a equação (2.58) pode ser reescrita da seguinte maneira

dd⁢t⁢(μ⁢y)=μ⁢g⁢(t). (2.63)

Integrando, obtemos a solução geral

y⁢(t)=1μ⁢(t)⁢[∫μ⁢(t)⁢g⁢(t)⁢𝑑t+c]. (2.64)
Exemplo 2.1.3.

Vamos calcular a solução geral da seguinte EDO

y′+1t⁢y=t. (2.65)

Primeiramente, calculamos o fator integrante μ=μ⁢(t) tal que

μ⁢y′+μ⁢1t⁢y=(μ⁢y)′=μ′⁢y+μ⁢y′. (2.66)

Ou seja, precisamos que

μ′=1t⁢μ. (2.67)

Integrando, obtemos

μ⁢(t)=e∫1t⁢𝑑t (2.68)
=eln⁡|t| (2.69)
=t (2.70)

Aplicando o fator integrante a EDO (2.65), obtemos

dd⁢t⁢(t⁢y)=t2 (2.71)
t⁢y=∫t2⁢𝑑t (2.72)
y=1t⁢[t33+c] (2.73)
y=t23+ct (2.74)

2.1.4 Aplicação em modelagem

Exemplo 2.1.4.(Mistura em tanque)

No instante inicial t=0 s (segundo), um tanque contem q0 kg (quilograma) de sal dissolvido em l L (litro) de água. Uma solução de s kg/L de sal e água entra no tanque a uma taxa de r L/s. Esta solução mistura-se com o líquido presente no tanque e a mistura final sai do tanque a mesma taxa de r L/s.

Vamos modelar a quantidade de sal q kg presente no tanque a cada instante t s. Temos que q é função do tempo t s, i.e. q=q⁢(t). A condição inicial é

q⁢(0)=q0. (2.75)

A taxa de variação de q no tempo é d⁢q/d⁢t e é modelada por

d⁢qd⁢t=s⁢r⏟taxa de entrada−ql⁢r⏟taxa de saída. (2.76)

Ou seja, o problema é modelado como o seguinte PVI

d⁢qd⁢t=s⁢r−ql⁢r,t>0, (2.77)
q⁢(0)=q0, (2.78)

onde s, r, l e q0 são parâmetros do problema. A EDO relacionada é linear de primeira ordem e, portanto, pode ser resolvida pelo método dos fatores integrantes. Veja o ER.2.1.3.

Exemplo 2.1.5.(Objeto em queda livre)

Seja m kg a massa de um objeto em queda livre em um meio com resistência de γ kg/s e aceleração da gravidade de g m/s2. A segunda lei de Newton é a lei física que estabelece que a força total atuando sobre o objeto é igual a sua massa multiplicada por sua aceleração. Desta forma, obtemos

m⁢d⁢vd⁢t⏟massa×aceleração=m⁢g⏟força da gravidade−γ⁢v⏟força da resistência], (2.79)

onde v=v⁢(t) m/s é a velocidade do objeto (sentido positivo igual ao da força da gravidade). Assumindo que o objeto tem velocidade v0 m/s no instante inicial t=0, o modelo resume-se ao seguinte PVI:

m⁢d⁢vd⁢t=m⁢g−γ⁢v,t>0, (2.80)
v⁢(0)=v0, (2.81)

onde m, g, γ e v0 são parâmetros.

2.1.5 Exercícios resolvidos

ER 2.1.1.

Resolva o seguinte PVI

y′+y=1,t>0, (2.82)
y⁢(0)=2. (2.83)
Resolução.

Primeiramente, obtemos a solução geral da EDO pelo método dos fatores integrante. Para tanto, buscamos pelo fator integrante μ tal que

μ⁢y′+μ⁢y=(μ⁢y)′, (2.84)

ou seja,

μ′=μ (2.85)
μ⁢(t)=et. (2.86)

Obtido o fator integrante, reescrevemos a EDO como segue

dd⁢t⁢(μ⁢y)=μ⋅1 (2.87)
dd⁢t⁢(et⁢y)=et. (2.88)

Integrando, obtemos a solução geral

y=1+c⁢e−t. (2.89)

Aplicando a condição inicial, obtemos

y⁢(0)=2 (2.90)
1+c⁢e−0=2 (2.91)
c=1. (2.92)

Concluímos que a solução do PVI é y⁢(t)=1+e−t.

ER 2.1.2.

Calcule a solução geral da EDO

y′+1t⁢y=sen⁡(t),t>0. (2.93)
Resolução.

Buscamos pelo fator integrante μ tal que

μ⁢y′+μ⁢1t⁢y=(μ⁢y)′, (2.94)

ou seja,

μ′=μt (2.95)
μ⁢(t)=e∫1t⁢𝑑t=eln⁡|t|=t. (2.96)

Obtido o fator integrante, reescrevemos a EDO como segue

dd⁢t⁢(μ⁢y)=μ⋅sen⁡(t) (2.97)
dd⁢t⁢(t⁢y)=t⁢sen⁡(t). (2.98)

Integrando, obtemos a solução geral

y⁢(t)=ct+sen⁡(t)t−cos⁡(t). (2.99)
ER 2.1.3.

(Mistura em tanque) No instante inicial t=0 s (segundo), um tanque contem 100 kg de sal dissolvidos em 1000 L d’água. Uma solução de 0,2 kg/L de sal e água entra no tanque a uma taxa de 10 L/s. Esta solução mistura-se com o líquido presente no tanque e a mistura final sai do tanque a mesma taxa de 10 L/s. Calcule a quantidade de sal misturado no tanque após 1 hora de operação, i.e. quando t=3600 s.

Resolução.

Denotando por q=q⁢(t) kg a quantidade de sal misturado no tanque no instante t, temos que a taxa de variação de q no tempo é dada por

d⁢qd⁢t=0,2⋅10−q1000⋅10 (2.100)
=2−q100. (2.101)

Ou seja, o modelo constitui-se no seguinte PVI

d⁢qd⁢t=2−q100,t>0, (2.102)
q⁢(0)=100. (2.103)

Para resolver o problema, vamos usar o método dos fatores integrantes. O fator integrante é escolhido como sendo

μ⁢(t)=e∫1100⁢𝑑t (2.104)
=et/100. (2.105)

Segue que a EDO (2.102) pode ser reescrita como

dd⁢t⁢(q⁢et/100)=2⁢et/100. (2.106)

Integrando, obtemos

q⁢(t)=e−t/100⁢∫2⁢et/100⁢𝑑t (2.107)
=e−t/100(200et/100+c) (2.108)
=200+ce−t/100. (2.109)

Da condição inicial, obtemos

q⁢(0)=100 (2.110)
200+c=100 (2.111)
c=−100. (2.112)

Logo, a solução do PVI é

q⁢(t)=200−100⁢e−t/100. (2.113)

No tempo t=3600 s, temos

q⁢(3600)=200−100⁢e−3600/100≈200⁢kg. (2.114)

2.1.6 Exercícios

E. 2.1.1.

Calcule a solução do seguinte PVI

y′+y=0,t>0, (2.115)
y⁢(0)=1. (2.116)

y⁢(t)=e−t

E. 2.1.2.

Calcule a solução do seguinte PVI

y′−y=2,t>0, (2.117)
y⁢(0)=1. (2.118)

y⁢(t)=3⁢et−2

E. 2.1.3.

Calcule a solução geral da seguinte EDO

y′+y=sen⁡(t). (2.119)

y⁢(t)=c⁢e−t+sen⁡(x)2−cos⁡(x)2

E. 2.1.4.

Calcule a solução geral do seguinte PVI

y′+1t⁢y=2⁢t,t>1, (2.120)
y⁢(1)=0. (2.121)

y⁢(t)=23⁢(t2−1t)

E. 2.1.5.

Calcule a solução geral do seguinte PVI

t⁢y′+2⁢y=1,t>1, (2.122)
y⁢(1)=1. (2.123)

y⁢(t)=12⁢(1t2+1)

E. 2.1.6.

Seja um objeto de massa m=1 kg em queda livre sujeito a aceleração da gravidade de 9,8 m/s2 e resistência do meio de γ=0,2 kg/s. Assuma, ainda, que o objeto está em repouso no tempo inicial e a uma altura de 10 m (metros) do solo. Quanto tempo leva para o objeto atingir o solo.


1.5 s


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Pedro H A Konzen
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