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Cálculo II

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1.2 Limites e continuidade

1.2.1 Limites ao longo de uma curva

Seja C uma curva paramétrica lisa222Uma curva paramétrica é lisa quando as derivadas de suas componentes são contínuas e não simultaneamente nulas. dada por

C⁢(t)=(x⁢(t),y⁢(t)), (1.10)

onde t é o parâmetro da curva. Seja, também, t0 tal que (x⁢(t0),y⁢(t0))=(x0,y0). Então, o limite de uma função f⁢(x,y) ao longo da curva C quando (x,y) se aproxima do ponto (x0,y0) é definido como

limao longo de C(x,y)→(x0,y0)f⁢(x,y)=limt→t0f⁢(x⁢(t),y⁢(t)), (1.11)

onde t0 é o valor do parâmetro correspondente ao ponto (x0,y0) na curva C. Consultemos a Figura 1.7 para uma ilustração do conceito de limite ao longo de uma curva. Nela, a curva C é representada sobre a superfície do gráfico da função f⁢(x,y), e o ponto (x0,y0) é o ponto de interesse para o cálculo do limite.

Refer to caption
Figura 1.7: Limite ao longo de uma curva.
Exemplo 1.2.1.

Consideremos a função de duas variáveis reais

f⁢(x,y)=x⁢yx2−2⁢y2. (1.12)

Vamos calcular os seguintes limites ao longo de diferentes curvas que passam pelo ponto (0,0):

  1. a)

    Ao longo da curva C1 definida por y=0:

    limao longo de ⁢y=0(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)=limx→0f⁢(x⁢,0) (1.13)
    =limx→0x⋅0x2−2⋅02 (1.14)
    =limx→00=0. (1.15)
  2. b)

    Ao longo da curva C2 definida por y=x:

    limao longo de ⁢y=x(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)=limx→0f⁢(x,x) (1.16)
    =limx→0x⋅xx2−2⋅x2 (1.17)
    =limx→0x2−x2=−1. (1.18)
  3. c)

    Ao longo da curva C3 definida por y=−2⁢x:

    limao longo de ⁢y=−2⁢x(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)=limx→0f⁢(x,−2⁢x) (1.19)
    =limx→0x⋅(−2⁢x)x2−2⋅(−2⁢x)2 (1.20)
    =limx→0−2⁢x2x2−8⁢x2=limx→0−2⁢x2−7⁢x2=27. (1.21)

Para funções de três variáveis reais, o conceito de limite ao longo de uma curva fica imediatamente estendido. Seja C uma curva paramétrica lisa dada por

C⁢(t)=(x⁢(t),y⁢(t),z⁢(t)), (1.22)

onde t é o parâmetro da curva. Seja, também, t0 tal que (x⁢(t0),y⁢(t0),z⁢(t0))=(x0,y0,z0). Então, o limite de uma função g⁢(x,y,z) ao longo da curva C quando (x,y,z) se aproxima do ponto (x0,y0,z0) é definido como

limao longo de C(x,y,z)→(x0,y0,z0)g⁢(x,y,z)=limt→t0g⁢(x⁢(t),y⁢(t),z⁢(t)), (1.23)

onde t0 é o valor do parâmetro correspondente ao ponto (x0,y0,z0) na curva C.

Exemplo 1.2.2.

Consideremos a função de três variáveis reais

g⁢(x,y,z)=x⁢y⁢z2⁢x3+y3+z3. (1.24)

Vamos calcular os seguintes limites ao longo de diferentes curvas que passam pelo ponto (0,0,0):

  1. a)

    Ao longo da curva C1 definida por x=0 e z=0:

    limao longo de ⁢x=0,z=0(x,y,z)→(0,0,0)g⁢(x,y,z)=limy→0g⁢(0,y⁢,0) (1.25)
    =limy→00⋅y⋅02⋅03+y3+03 (1.26)
    =limy→00=0. (1.27)
  2. b)

    Ao longo da curva C2 definida por x=y=z:

    limao longo de ⁢x=y=z(x,y,z)→(0,0,0)g⁢(x,y,z)=limx→0g⁢(x,x,x) (1.28)
    =limx→0x⋅x⋅x2⁢x3+x3+x3 (1.29)
    =limx→0x34⁢x3=14. (1.30)

1.2.2 Limites gerais

A noção de limite ao longo de uma curva é útil para analisar o comportamento de funções de várias variáveis reais, mas não é suficiente para determinar o limite “geral” da função em um ponto. O limite de uma função f⁢(x,y) quando (x,y) se aproxima do ponto (x0,y0) é L e é denotado por

lim(x,y)→(x0,y0)f⁢(x,y)=L, (1.31)

quado, f⁢(x,y) é arbitrariamente próximo de L para todos os pontos (x,y) suficientemente próximos de (x0,y0), exceto possivelmente no próprio ponto (x0,y0). Quando existe, o limite de uma função de várias variáveis reais em um ponto é o mesmo, independentemente da direção ou da curva ao longo da qual nos aproximamos do ponto.

Exemplo 1.2.3.

lim(x,y)→(1,−1)x⁢ey+1=1⋅e(−1)+1 (1.32)
=1⋅e0=1. (1.33)

Os limites de funções ao longo de curvas podem ser usados para mostrar que o limite de uma função de várias variáveis reais não existe em um ponto. Se os limites ao longo de diferentes curvas que passam pelo ponto são diferentes, então o limite da função nesse ponto não existe.

Exemplo 1.2.4.

O limite da função de duas variáveis reais

f⁢(x,y)=x⁢yx2−2⁢y2 (1.34)

quando (x,y) se aproxima do ponto (0,0) não existe. De fato, no Exemplo 1.2.1 foi mostrado que os limites ao longo das curvas y=0 e y=x são diferentes, portanto, o limite geral da função f⁢(x,y) quando (x,y) se aproxima do ponto (0,0) não existe.

1.2.3 Continuidade

O conceito de continuidade para funções de várias variáveis reais é uma extensão do conceito de continuidade para funções de uma variável real. Uma função f⁢(x,y) é contínua em um ponto (x0,y0) se o limite da função quando (x,y) se aproxima do ponto (x0,y0) existe e é igual ao valor da função nesse ponto, ou seja,

lim(x,y)→(x0,y0)f⁢(x,y)=f⁢(x0,y0). (1.35)

Quando uma função é contínua em todos os pontos de seu domínio, dizemos que a função é contínua em toda parte. Neste caso, a função não apresenta descontinuidades, e seu gráfico é uma superfície sem rupturas, degraus ou buracos.

Exemplo 1.2.5.(Função descontínua)

A função

f⁢(x,y)=x⁢yx2−2⁢y2 (1.36)

foi estudada no Exemplo 1.2.1. Como o limite da função não existe quando (x,y) se aproxima do ponto (0,0), a função f⁢(x,y) não é contínua nesse ponto. De fato, a função apresenta uma descontinuidade no ponto (0,0). A função f⁢(x,y) também é descontínua em todos os pontos do conjunto D={(x,y)∈ℝ2:x2−2⁢y2=0}, pois o denominador da função se anula nesses pontos, tornando a função indefinida. Consultemos o gráfico da função na Figura 1.8.

Refer to caption
Figura 1.8: Gráfico da função f⁢(x,y)=x⁢yx2−2⁢y2.

Identificando funções contínuas

A continuidade de funções pode ser analisada por diferentes combinações de operações com funções contínuas. Estudemos algumas dessas propriedades de continuidade:

  1. a)

    Se g⁢(x) é função contínua em x0 e h⁢(y) é função contínua em y0, então a função f⁢(x,y)=g⁢(x)⁢h⁢(y) é contínua em (x0,y0).

    Exemplo. Seja g⁢(x)=x2 e h⁢(y)=sen⁡(y). Ambas são funções contínuas em todos os pontos de seus domínios. Portanto, a função f⁢(x,y)=g⁢(x)⁢h⁢(y)=x2⁢sen⁡(y) é contínua em todos os pontos de seu domínio.

  2. b)

    Se h⁢(x,y) é função contínua em (x0,y0) e g⁢(z) é função contínua em z0=h⁢(x0,y0), então a função composta f⁢(x,y)=g⁢(h⁢(x,y)) é contínua em (x0,y0).

    Ex. Seja h⁢(x,y)=x2+y2 e g⁢(z)=e−z. Ambas são funções contínuas em todos os pontos de seus domínios. Portanto, a função composta f⁢(x,y)=g⁢(h⁢(x,y))=e−(x2+y2) é contínua em todos os pontos de seu domínio.

  3. c)

    Se f⁢(x,y) é função contínua em (x0,y0) e x⁢(t) e y⁢(t) são funções contínuas em t0, com x⁢(t0)=x0 e y⁢(t0)=y0, então a função composta g⁢(t)=f⁢(x⁢(t),y⁢(t)) é contínua em t0.

    Ex. Seja f⁢(x,y)=x2+y2, x⁢(t)=sen⁡(t) e y⁢(t)=cos⁡(t). A função f⁢(x,y) é contínua em todos os pontos de seu domínio, e as funções x⁢(t) e y⁢(t) são contínuas em todos os pontos de seus domínios. Portanto, a função composta g⁢(t)=f⁢(x⁢(t),y⁢(t))=sen2⁡(t)+cos2⁡(t)=1 é contínua em todos os pontos de seu domínio.

  4. d)

    A soma, a diferença, o produto e o quociente (quando o denominador não é zero) de funções contínuas são funções contínuas.

    Ex. Sejam f⁢(x,y)=x2+y2 e g⁢(x,y)=ex+y. Ambas são funções contínuas em todos os pontos de seus domínios. Portanto, também são contínuas as funções

    h⁢(x,y)=f⁢(x,y)+g⁢(x,y)=x2+y2+ex+y, (1.37)
    k⁢(x,y)=f⁢(x,y)−g⁢(x,y)=x2+y2−ex+y, (1.38)
    m⁢(x,y)=f⁢(x,y)⁢g⁢(x,y)=(x2+y2)⁢ex+y, (1.39)
    n⁢(x,y)=f⁢(x,y)g⁢(x,y)=x2+y2ex+y. (1.40)

    Neste último caso, notemos que g⁢(x,y)=ex+y≠0 para todos os pontos (x,y), condição necessária para que a função n⁢(x,y) seja contínua em toda a parte.

1.2.4 Exercícios

E. 1.2.1.

Seja

f⁢(x,y)=x2+y2x2−y2. (1.41)

Calcule os seguintes limites:

  1. a)

    limao longo de ⁢x=0(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)

  2. b)

    limao longo de ⁢y=0(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)

  3. c)

    limao longo de ⁢y=x(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)

  4. d)

    limao longo de ⁢x=−y(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)

  5. e)

    limao longo de ⁢y=x2(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)


a) −1; b) 1; c) ∄; d) ∄; e) 1.

E. 1.2.2.

Seja

f⁢(x,y,z)=x⁢y⁢zx3−y3+z3. (1.42)

Calcule os seguintes limites:

  1. a)

    limao longo de ⁢x=0,y=0(x,y,z)→(0,0,0)f⁢(x,y,z)

  2. b)

    limao longo de ⁢y=0,z=0(x,y,z)→(0,0,0)f⁢(x,y,z)

  3. c)

    limao longo de ⁢z=0,x=0(x,y,z)→(0,0,0)f⁢(x,y,z)

  4. d)

    limao longo de ⁢x=y=z(x,y,z)→(0,0,0)f⁢(x,y,z)

  5. e)

    limao longo de ⁢y=−z,x=2⁢z(x,y,z)→(0,0,0)f⁢(x,y,z)


a) 0; b) 0; c) 0; d) 1; e) −15.

E. 1.2.3.

Seja

f⁢(x,y)=x2⁢yx2+y2. (1.43)

Calcule os seguintes limites:

  1. a)

    limao longo de ⁢x=1(x,y)→(1,−1)f⁢(x,y)

  2. b)

    limao longo de ⁢y=−1(x,y)→(1,−1)f⁢(x,y)

  3. c)

    limao longo de ⁢y=x2−x(x,y)→(1,−1)f⁢(x,y)

  4. d)

    lim(x,y)→(1,−1)f⁢(x,y)


a) −1/2. b) −1/2. c) −1/2. d) −1/2.

E. 1.2.4.

Calcule os seguintes limites:

  1. a)

    lim(x,y)→(2,−3)x2+y2−12x+y

  2. b)

    lim(x,y)→(−1,2)x⁢y⁢ex+y

  3. c)

    lim(x,y)→(−12⁢,1)sen⁡(π⁢x)⁢cos⁡(π⁢y)


a) −1. b) −2⁢e. c) 1.

E. 1.2.5.

A função

f⁢(x,y)=x⁢y2⁢x2−y2. (1.44)

é contínua em todos os pontos de seu domínio? Caso seja descontínua em algum ponto, mostre que o limite ao longo de duas diferentes curvas que passam por esse ponto é diferente, provando que o limite da função nesse ponto não existe.


f é descontínua em (0,0). limao longo de ⁢y=0(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)=0 e limao longo de ⁢y=x(x,y)→(0,0)f⁢(x,y)=1.

E. 1.2.6.

São contínuas em todos os pontos de seus domínios as seguintes funções? Justifique sua resposta.

  1. a)

    f⁢(x,y)=x2⁢e−y2

  2. b)

    g⁢(x,y)=sen⁡(π⁢x⁢y2)

  3. c)

    h⁢(x,y)=x2⁢y+y2−1

  4. d)

    k⁢(x,y)=sen⁡(π⁢x⁢y)⁢cos⁡(π⁢(x+y))

  5. e)

    m⁢(x,y)=x⁢yx2+y2+1


a) f é contínua em toda parte, pois é o produto de funções contínuas de uma variável real. b) g é contínua em toda parte, pois é a composição de uma função contínua de uma variável real com uma função contínua de duas variáveis reais. c) h é contínua em toda parte, pois é a soma de funções contínuas. d) k é contínua em toda parte, pois é o produto de funções contínuas. e) m é contínua em toda parte, pois é o quociente de funções contínuas, e o denominador nunca se anula.


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Pedro H A Konzen
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